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sábado, 14 de julho de 2012

Sintra,1428


A Feira Medieval que ontem começou em Sintra recria o ano de 1428 e o pedido de casamento da infanta Isabel, filha de D.João I. Voltámos a 1428 e registámos as preocupações desses tempos.
Era luzidia a embaixada para o tratado de casamento: o Senhor de Roubaix e de Erzelles, Balduíno de Lanoy, Thoulongeon, Gil de Tournay,  e Jan Van Eyck, moço da câmara do Duque e  seu mestre de pintura. Van Eyck, o mais notável pintor flamengo do seu tempo, pintava o retábulo da Catedral de Bavon, encomenda do Senhor de Ramela, quando o Duque de Borgonha o encarregou de retratar a noiva, Isabel de Portugal. Interrompendo a obra, que só anos depois retomaria, chegou em Dezembro a Portugal, logo a comitiva passando a Estremoz, onde a Corte se encontrava.
Para Filipe, seria a terceira união. Filipe III de Borgonha, Brabante e Países Baixos, desposara já Michelle de Valois  e Bonne de Artois e em Portugal buscava nova aliança. Isabel, a filha de D. João I foi a escolhida, a lustrosa embaixada faria o pedido formal. A Van Eyck competiria retratá-la, para que Filipe dela tivesse imagem fiel antes dos esponsais em Bruges.
Isabel passara os trinta anos. Única filha de D. João, vivia em Évora desde que a mãe, a doce Filipa de Lencastre se finara, ia para mais de catorze anos. Com El-Rei no ocaso da vida e D. Henrique em plena saga africana, novas alianças políticas se impunham em plena Guerra dos Cem Anos, os interesses do Reino aconselhavam. Por sugestão de D. João, o pedido seria em Sintra.
Van Eyck espantou-se com a vila, mistura de arte mudéjar e mourisca, com as originais e  pantagruélicas chaminés. Uma semana levou retratando a princesa, pouco prendada de feições por sinal. Balduíno de Lanoy ofertou dois cisnes, que muito surpreenderam os locais, pouco familiarizados com tais aves e D. João, agradado, mandou soltá-los nos jardins do Paço.
Jan, tirado das neblinas de Bruges e suas sombrias igrejas, achou familiar a névoa de Sintra, mais serena que o tórrido Alentejo.Com Gennaro, um genovês da corte, criou mesmo amizade nessas semanas, registando retabulares paisagens em óleos pujantes e incisivos. Jan era amante do belo, de influência helenística, com obra plena de profundidade e sombras. Escapando das caçadas e torneios, inspirado retratou o Paço, entre pinceladas no retrato de Isabel.Com o infante D. Pedro, várias vezes hóspede de Filipe e viajante de várias partidas, se entreteve muitas vezes, falando de política e viagens, do Chipre dos Lusignans ou da excitante Morávia. A governança da Flandres era para Pedro exemplar, isso mesmo lhe confessou certo dia no Paço:
-Saiba, meu caro Jan, que à distância da Flandres vi claramente os fortes e fracos do nosso povo. Temos nós o vício da basofia, que todos atrai á corte, enjeitando os filhos as profissões dos pais, afidalgando-se, formando uma nuvem de parasitas que enchem o Paço d’El-Rei e atulham as escadas das secretarias, na esperança dum lugar de escudeiro. Falta-nos economia privada e abusa-se da quebra da moeda, useiro expediente para saldar as contas. Não há que mudar a moeda, há que por cobro às despesas do rei e não esmagar o povo com peitas e impostos. Avisado iria meu pai se ouvisse conselho de quem viajou e ouviu outras gentes.
-Príncipe Pedro, bem vejo que o progresso de vosso reino tendes em grande empenho. Eu me contento com meus óleos, e o serviço ao senhor meu duque, e em breve a vossa irmã, pela Graça de Deus.
-Bem sei, e para a Flandres e Brabante se deveria olhar atentamente. Meu irmão Henrique cuida melhor ser a empresa de África, pois por mim, melhor seria a aliança com os reinos europeus. Minha irmã é avisada, e gostará de Bruges, e de Filipe, estou certo.
No Paço, jantares opíparos com tanger de música e torneios de canas assinalaram por vários dias o acerto dos esponsais, posto o que Van Eyck e os plenipotenciários se retiraram para a Flandres, o retrato estava pronto e o contrato assinado.
Única filha, não foi sem uma lágrima que D. João viu partir Isabel. No dia aprazado, após as vénias, com um sentido beijo  se despediram. Já velho, o de Boa Memória sabia que não mais a tornaria a ver, ao serviço do Reino e da política de alianças. Após semanas de viagem, finalmente Isabel de Portugal chegou a Bruges, aí recebida com pompa  e um cerimonioso te deum. Esperando-a em Ostende, Van Eyck recordou D. Pedro, Gennaro e o irreal céu azul a oeste de Castela.
A 10 de Janeiro de 1430, Filipe enfim desposou Isabel. Dela teve três filhos, dois falecidos de tenra idade, e Carlos, o Temerário, que lhe sucedeu. Para trás, ficaram os cisnes, no Paço de Sintra, vendo-os altivos no lago, muitas vezes D. João recordou Isabel, e também Filipa, precocemente levada.
Quanto ao infante D.Pedro, a falta de ouvintes para os seus avisados recados levou à apagada e vil tristeza de hoje. Salva-se a sangria de frutos silvestres, a melhor da Feira.

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