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quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Sindroma Titanic


Nos agora loucos anos 90, anos de vacas gordas, quando o futuro era risonho e ilimitado, assistimos ao triunfo do hedonismo individualista, do consumismo desenfreado, dos empregos sorridentes e da abundância ilimitada. O progresso era uma questão de tempo, e a curva dos rendimentos sempre ascendente. Sob o signo do estradismo cavaquista fizeram-se vias e pontes, os hipers cresceram como cogumelos, Punta Cana e Cancun estranharam a presença inusitada de tantos portugueses.
Posta a ressaca e um despertar entre náuseas estranhas, alguma contenção foi recomendada, pouco escutada porém. Passado algum tempo, a dose aumentou, e os atarantados consumidores de telemóveis e playstations entreolharam-se ante o que se estaria a passar, quais passageiros da primeira classe do Titanic depois do primeiro embate, ainda a música fluía e o champanhe inebriante jorrava. Num ápice, tudo se desmoronou, os sorrisos desapareceram, os amanhãs ficaram nublados e, qual bruma tenebrosa atrás de cifras indecifráveis e títeres movendo-se entre gráficos, o barco começou a meter água, a música parou, os criados fugiram, e, com um comandante sem sinais no radar, os passageiros quais zombies procuraram uma saída redentora. Alguns lançaram-se já à água, em busca de destinos mais risonhos, outros aguentam ainda na fila para o salva-vidas, onde nem velhos nem mulheres estão primeiro, a maioria raciona os poucos víveres e reza por um bote que lhes devolva a Ítaca perdida, antes a um passo, e agora, distante e minúscula, encerrada num passado recente e cada vez mais longínquo. Como o ser de Platão, capturada a luz, deixámo-la escapar, e, chamuscados, regressamos ao negrume das trevas, esperando um sebástico raio de luz que de novo permita  espreitar a luz, sem risco de cegar.
Com o medo latente e de volta, proféticos velhos do Restelo anunciam de novo caminhos esconsos, e, na ânsia de sobreviver, valores antes basilares ameaçam ser facilmente escamoteados, capturados por hordas vorazes. Agora os rendimentos, os direitos básicos depois, a democracia, por fim, até que alguém feche a luz e bata com a porta. Vamos fechar as portas que gerações de lutadores deram a vida para abrir?
É denso o nevoeiro no Titanic-Portugal. Há porém que fazer do madeirame podre jangadas, dos lençóis velas e com os náufragos de novo sulcar o mar-oceano. Essa a tarefa hercúlea desta geração. Como sempre, ao longo da nossa História.


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