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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Pão por Deus!"



Emília tinha sido despedida, com o marido entrevado depois de uma queda da grua e um filho autista, não se pode dizer que a vida lhe sorrisse. Ainda jovem e ingénua, depositara esperanças numa carreira de professora, desiludida, terminara na fábrica de fogões, fazendo um trabalho rotineiro e mal pago. A fábrica faliu, porém, deixando três meses de salário por pagar e as contas a acumular na mesa do corredor. Morava numa casa velha que o sogro lhes havia deixado em Lourel, aziaga terra entre dois cemitérios, costumava dizer em dias de depressão. Ainda se lhe saísse o Euromilhões! Fielmente, jogava todas as semanas seis euros mas a sorte nunca lhe sorrira, pão de pobre quando cai no chão é com a manteiga para baixo, dizem os brasileiros e com razão, pensava, conformada.

Naquela sexta-feira, jogou os seis euros do costume no café do Baptista e guardado religiosamente o papel seguiu para casa, a tratar do jantar e do marido. No dia seguinte ao sorteio procurou a chave sorteada no Correio da Manhã, invariavelmente sentenciando mais uma semana de decepção. Desta vez, porém, procurando o registo na mala, não o encontrou. Cartões, facturas para pagar, o passe, nada! Deixá-lo, não iria sair de qualquer maneira. Lembrou-se que tinha apostado em números seguidos, 6-7-8-9-10, nas estrelas, o 4 e 5. Conferindo a chave da semana, os números premiados eram 6-7-8-9-10, as estrelas 4 e 5, a televisão já anunciara haver apenas dois  premiados, um em Portugal outro na Bélgica, cinco milhões de euros para cada um.Emília quase teve uma apoplexia! Eram os seus números! Perturbada, voltou a casa e esvaziou a mala vezes sem conta, a carteira, as gavetas, até o contentor do lixo. A sorte passara-lhe à porta e nunca veria um cêntimo do dinheiro que mudaria a sua vida.

No dia seguinte era feriado, Dia de Todos os Santos, pela manhã rebanhos de miúdos ruidosos de saco de pano na mão, iam correndo as casas e cafés pedindo Pão por Deus, ancestral tradição na busca da romã, língua-de-gato ou chocolate que vizinhos ainda não moldados pela selva urbana ofereceriam, renovado ritual de geração em geração. E lá iam de porta em porta, os mais velhos guiando os mais novos, tocando as campainhas e repetindo a mágica cantilena que abriria a porta dos presentes naquela espécie de Natal antecipado. Pão por Deus! Pão por Deus!

Filipe, com o Joãozinho, pela mão ia também, a mãe deixara mas na condição de ficarem  pelas redondezas, queria-os em casa ao meio-dia. De saco quase cheio, bateram à porta da Emília, mais três casas e terminariam, para o Filipe seria a última vez, ia fazer treze, tempo de passar o testemunho. -Pão por Deus! – iam gritando, com os os cães a ladrar à desusada peregrinação matinal. Emília, ainda em transe com o Euromilhões, nada contara ainda, quase em depressão, queria era sossego e silêncio, muito menos estava com paciência para os miúdos:

-O que é que querem daqui? Julgam que isto é a Mitra? Tomara eu ter para mim, quanto mais para vocês estragarem. Os vossos pais que vos dêm! –reclamou, mal-humorada, ainda em roupão e com os cabelos revoltos. E se não se vão já embora daqui, largo-vos o cão, vão ver!

Mulher chata, pensaram os irmãos. Pronto, minha senhora, vamos já embora!

À saída do quintal, Joãozinho, atento, deu com os olhos num pequeno papel branco caído atrás dum vaso de malvas. Na inocência dos oito anos, não percebeu o que fosse, mas olhando para trás, chamou a Emília, ainda à porta, esperando que fechassem o portão.

-Oh minha senhora. Quer que lhe ponha este papel no lixo?

-Qual papel? Ainda aí estão? Com um raio, nunca mais se vão embora! –arengou, impaciente.

-Isto! -e correu a entregar-lhe o papel achado junto ao vaso.

Milagre de todos os santos! Era a premiada chave do Euromilhões, os mágicos números e estrelas que a Europa procurava, os cinco milhões da felicidade. De olhos esbugalhados, Emília soltou um grito emocionado:

-Virgem Santíssima! Ai meu Deus que me dá um enfarte! Alberto! Alberto!

Joãozinho  não entendeu a algazarra, a mulher não só não lhes dera nada, como era maluca, pensou, e afastou-se a ter com o irmão, a ronda do Pão por Deus estava quase completa.

Junto à porta, Emília abraçava o marido, a quem finalmente contou o sucedido, tanto ria como chorava, num chorrilho de emoções incontroladas. Vendo que o pequeno João já sumia na esquina, correu no seu encalço:

-Ó meu filho, vem cá, não te vás embora! Deu-lhe dois, quatro beijos lambuzados, e correu à cozinha, onde três pacotes de bolachas e um Toblerone voaram para o saco, repentinamente pequeno-E para a semana vem cá ter comigo sem falta, ouviste? Já tens Playstation?

Maria Emília e o marido moram agora numa vivenda em Colares, com um jardim bem tratado pelo senhor Isidro. O marido montou um negócio em casa, foram às Canárias de férias e o pequeno Marco anda numa escola especial. O resto é para assegurar o futuro.


Um pequeno papel branco pode mudar muitas pequenas vidas. Para o ano, e por alguns anos ainda, lá estará o pequeno João com o saco de  pano, patrulhando as casas daqueles pais natais sem barba branca, enchendo o saco de línguas-de-gato e coloridos rebuçados, tesouro acumulado proferida a senha mágica. Pão por Deus!      

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