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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O país das bancarrotas



A dívida absorvia três quartos da despesa e os juros metade das receitas, as taxas de juro subiam, apertando o cerco às contas públicas. Tudo como de costume, no Portugal rotativista, dançando de Hintze Ribeiro para Luciano de Castro, num previsível vira, que nem o manguito do Bordalo conseguiam evitar.

O Baring Brothers, banco inglês que já colocava a divida pública de vários  países nos mercados, abanou com a insolvência da Argentina, o que gerou o pânico internacional, assustando os mercados. Em Portugal, a solução foi uma vez mais a austeridade. Tornaram-se patentes as más aplicações da banca e o governo, pressionado, viu-se obrigado a negociar uma receita extraordinária, ao conceder por três milhões de libras o monopólio dos tabacos ao conde de Burnay.

Corria o mês de Outubro. D. Carlos caçava em Vila Viçosa, alheado ao vexame que o governo do primo Eduardo lhe impusera com o humilhante ultimato, os republicanos conspiravam nos cafés e o Governo de João Crisóstomo debatia-se com a dívida e os adiantamentos à casa real.

Em Sintra, pintada de castanhos outonais, de costas voltadas a Lisboa engalfinhada e claustrofóbica, Henry Burnay, recente conde pela mão de D. Luís e novo magnata dos tabacos, visitava o amigo Santos e Viana, a sua ajuda propiciara uma folga financeira ao governo regenerador. A viagem desde as Laranjeiras fora tranquila e solarenga, no final  aproveitaria para rever a condessa d’Edla na casa do Regalo, a pobre sofria de solidão, depois de enviuvar de D. Fernando, dividida entre o chalé de cortiça e a casa de Lisboa.

A  casa Henry Burnay & C.ª  não descurava uma oportunidade de negócio, a partir dela Henry Burnay tornara-se omnipresente nos grandes empreendimentos, valia mais de um milhão e quatrocentos mil réis, só em dinheiro. Fosse a metalurgia, lanifícios, papel, ou sabão, nenhum grande negócio se fazia sem que tivesse uma palavra a dizer. O recente negócio dos tabacos foi puxado por Santos e Viana, entre um charuto na biblioteca da casa de S. Pedro:

-Você, Henry, sempre saiu melhor que a encomenda! Então lá conseguiu que o João Crisóstomo lhe viesse comer à mão!..

-É como lhe digo, Anselmo, estes tipos, por dinheiro, até a mãe vendiam. Eu limito-me a aproveitar as oportunidades! - Burnay desfrutava a vista sobre a Pena enevoada, era sublime, pena o governo já a ter comprado à condessa d’Edla, chegara tarde para o negócio.

-Então este ano não foi à Granja? -Burnay veraneava em Gaia, mas esse ano por causa do negócio dos tabacos ficara por Lisboa.

-Não, não houve oportunidade. Sabe que tive de adiantar trinta e seis mil contos ao Ministério da Fazenda? O João Crisóstomo estava em pânico: era isso ou a bancarrota! Este país não tem tino nenhum! Ainda sugeri que aligeirasse a contribuição predial e industrial mas disse-me que não podia, o défice e tal…Assim não arranja aliados!

-Você é que devia estar no Governo, Henry! Só quem sabe o que custa o dinheiro é que o sabe administrar! - Santos e Viana bem sabia o que havia despendido para abrir o banco, com os ministros a criar dificuldades, logo resolvidas com uns lugares na administração.

-E parece que mesmo assim o dinheiro não chega! O Baring está com dificuldades em emprestar, parece que tem de se apresentar uma garantia em ouro! Ainda há dias disse ao Oliveira Martins que suspender a conversão das notas por noventa dias era errado, cria pânico nas pessoas, mas há lá uns “iluminados” que o aconselham. Mal, como sempre! O que está a aguentar isto é a pauta aduaneira. E nós, claro… Bom, meu caro, tenho de ir, fiquei de passar a visitar a condessa. O José Luciano ficou-lhe com a propriedade, mas deram-lhe um monte de bilhetes do tesouro sem valor e parece que está com dificuldades. É uma joia de pessoa, coitada!

-Então não fica para almoçar? Tenho aí um capão…

-Não, não, obrigado. Fica para depois. A ver se falamos do negócio da vidreira, na Marinha Grande, passe lá nas Laranjeiras um dia destes…

Apressado, saiu, mandando seguir para a Pena, uma livrança de dez mil réis estava já preparada para a condessa d’Edla. Embora poupada, a boa senhora tinha de acorrer às despesas, D. Fernando deixara-lhe bens mas pouco dinheiro em moeda.

Passados uns dias, apesar do empréstimo, o Governo, pela mão de Oliveira Martins, ministro da Fazenda, declarou a bancarrota parcial. O país saiu do padrão-ouro, reescalonou a dívida externa e passou a financiar-se com a emissão de moeda e só em 1902 se deu a situação como controlada. O país definhava, Henry Burnay, cavalheiro da indústria, apesar de tudo enriquecia. O segredo está em agarrar as oportunidades, pensava, terminando o charuto, enquanto a carruagem deslizava na estrada da Pena.

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