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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os cem anos de Álvaro Cunhal



Passam no próximo domingo, 10 de Novembro, 100 anos do nascimento de Álvaro Cunhal. Intelectual interventivo e líder carismático, dele ouvi falar pela primeira vez a 30 de Abril de 1974 quando regressou a Portugal depois dum exílio de mais de 15 anos, e, qual Lenine, se fez fotografar ao lado dos militares que, de cravo na lapela, acabavam de tomar o poder. Dois dias depois, tive o ensejo de o ver no histórico 1º de Maio, onde, com 14 anos e na companhia de meus pais e avô presenciei a maior e mais generosa manifestação de alegria que alguma vez se realizou em Portugal, e onde Cunhal, ao lado de Soares, surgiu como um dos protagonistas do momento histórico que se viveu.
Nos anos seguintes tive ensejo de conhecer a sua obra, os seus quadros marcadamente neo-realistas, os seus escritos e a crença indómita no socialismo por via do materialismo histórico, e até, sem o suspeitar, os livros que sob o bem guardado pseudónimo de Manuel Tiago escreveu sobre as lutas dos trabalhadores e camponeses, algumas hoje passadas para cinema e televisão. E, como compagnon de route  das esquerdas que fui nesses anos de esperança, frequentemente o escutei nas diversas festas do Avante a que fui, desde 1976 na antiga FIL até às memoráveis do Alto da Ajuda. Convicto, de personalidade forte, na defesa daquilo que para ele era o desígnio de Portugal, a caminho duma sociedade sem classes e de modelo soviético.
Em 1975, sem deixar de o escutar e apreciar a sua vontade férrea (como hoje nos fazem falta homens da sua fibra, face aos lacaios da troika que nos governam!) comecei a afastar-me do discurso e prática que qual flautista de Hamelim nos quis levar para uma nova e improvável utopia, a maior do século XX. Foi depois do caso “República”, quando as liberdades por que tantos comunistas e resistentes lutaram antes do 25 de Abril foram postas em causa, e a vontade popular expressa em votos nas eleições para a Constituinte apontaram a Portugal um caminho diferente daquele que Cunhal sonhara, e que teve um momento alto de oposição na grande manifestação da Fonte Luminosa, onde também estive, e onde Mário Soares e Salgado Zenha encabeçaram a resistência a um projecto de poder tutelado pela mente brilhante de Cunhal, tendo como executantes Vasco Gonçalves e o grupo mais radical do MFA.
Com a consolidação da democracia na sua acepção “burguesa”, Cunhal passou a ser visto como um velho do Restelo, derrotado da História e último moicano, sobretudo depois do colapso do “seu” mundo em 1991, após a perestroika. Não vacilou contudo quanto aos seus ideais, e não tenho dúvida em classificá-lo como um dos mais admiráveis lutadores e intelectuais do nosso século XX, o homem que, filho de pai burguês e aristocrata de província, tudo trocou por uma causa, que viveu parte da vida na clandestinidade e nas prisões de Salazar, e que delas fugiu de forma heróica e lendária.
Homens como Álvaro Cunhal, concorde-se ou não com eles, fazem falta a Portugal nestes dias de apagada e vil tristeza, povoado que está o nosso mundo de gente sem coluna vertebral eivados de boçalidade intelectual e pequenez de vistas. E, sobretudo, para, vítimas da fome, voltarmos a de novo sonhar com uma terra sem amos. Os amanhãs que cantam são escuros e cinzentos, a Internacional a cujo som se marchou para o socialismo queda-se pelo sótão da História, mas chamem-se Cunhal, Agostinho da Silva, Natália Correia ou Adriano Moreira, ainda resta a memória e o exemplo de portugueses que souberam ser mais que a sua circunstância e marcar o seu tempo e a do seu povo. Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não.

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