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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Sintra 2017



Sintra, Outono de 2017, postas as eleições autárquicas, o novo presidente da União de Freguesias de Sintra, criada em 2013 pela fusão de três freguesias do concelho, convocava uma assembleia para aprovar novos patrocínios que, atenta a falta de verbas iria contratualizar com privados. Uma empresa de tintas asseguraria o vencimento do pessoal operário, devendo para tanto ostentar T-Shirts dessa marca no exercício de funções, uma seguradora patrocinaria a manutenção dos jardins e valetas, assim se assegurando a sustentabilidade imposta desde 2011, quando pela primeira vez se acordara uma ajuda externa. Acácio Relvas, o novo presidente, apresentara um plano radical de saneamento económico: as escolas primárias seriam agora espaços mistos, albergando serviços, o centro de saúde e até alunos, em todo o centro histórico venderia em time sharing lugares de estacionamento, livremente transaccionáveis entre automobilistas, sendo que se passaria a cobrar o acesso a praias e falésias, a utilização de paragens de autocarro e bancos de jardim, a autorização para colocar vasos nas janelas e varandas, enfim, tudo o que mexesse e tivesse valor económico teria de ser auto-suficiente. Leis do período 2011-2013 penalizavam os autarcas que não comprovassem no momento da eleição deter as verbas necessárias para as obras que se propusessem executar, e desde que o voto passara a ser condicional, podendo ser retirado por incumprimento de promessas, os autarcas actuavam com mais contenção. Ainda estava na memória o malogrado Alberto Machico, a quem fora retirado o mandato por prometer ciclovias ligando as praias pelo areal e não ter executado nenhuma. A freguesia mudara muito em poucos anos contando com um só funcionário, avençado e operando por teletrabalho, e uma página na net substituíra o apoio ao munícipe, assim se poupando em pessoal. Até a sede era virtual, e o correio uma mera posta-restante, a funcionar na antiga Tasca do Manel, agora restaurante gourmet.
Nessa noite, Acácio reuniria com a nova presidente da câmara, uma jovem que ganhara a série 8 da Casa dos Segredos, eleita através de likes no Facebook. Reduzida a cinco vereadores, a nova equipa, da total confiança e nomeação da presidente, iria apresentar os planos para o quadriénio: a venda dos SMAS a um grupo do Qatar, a concessão da Regaleira a uma empresa de relógios chinesa, bem como a privatização de algumas escolas primárias, o Disney Chanel e a Chocapics haviam apresentado propostas. Acácio Relvas aplaudia, e ainda o programa não estava aprovado, já nova ideia lhe surgia: a venda de lotes nos cemitérios municipais, nos quais, facilitada a utilização vertical, se poderiam comercializar espaços de estacionamento em silo, dado o preço dos parquímetros estar pela hora da morte...
Eram tempos novos: depois da falência da Grécia, em 2013, o país tivera grandes mudanças. A dívida ia-se pagando, graças aos eurobonds que Conrad Bratwurst, o novo chanceler alemão, finalmente impusera, a troco da nomeação dum ministro das Finanças europeu. Lisboa perdera tal governante, e até os ministros dos Estrangeiros e Economia eram agora comuns aos Vinte e Oito. Sintra sobrevivera como concelho, mas as freguesias eram apenas cinco e os funcionários menos de cem, dispensado que fora o grosso por e-mail e sem indemnização, por imposição do governo de Paulo Portas, o primeiro ministro desde 2015, após a extinção do Tribunal Constitucional. Dependendo de autorizações de Bruxelas, as verbas vinham a conta-gotas, pelo que privatizar era a palavra de ordem para o quadriénio e as previsões da OCDE admitiam um crescimento de 0,1% para 2018, numa revisão em alta.
Acácio Relvas, de Nafarros, eleito para a junta aos trinta e cinco anos e ex-jogador de futsal, vinha focado em poupar e gerar receitas: para a rega dos jardins, captaria água da serra, para a recolha do lixo usaria rafeiros adoptados no canil, uma portagem de acesso à vila captaria verbas da scut pedonal na Volta do Duche, agora Merkelstrasse, com taxas diferenciadas para moradores, visitantes e chineses. Pouco a pouco, as contas compunham-se, e Bruxelas elogiava o esforço. Nem mais um habitante havia sido captado para lá morar, mas que interessava, pessoas são despesas, equipamentos, serviços, reduzida que fosse a população muito se ganharia em qualidade de vida e tranquilidade, da vila e dos cofres. E vistas bem as coisas, o consumismo e o dinheiro só haviam servido para criar vícios e desordens. Afastados há uma década de tais comportamentos desviantes, Sintra e Portugal seguiriam agora o rumo do aforro e contenção, apanágio dos mansos que um dia, completamente tesos, entrarão no reino dos céus…

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