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sábado, 30 de novembro de 2013

De Casablanca ao Hotel Netto



O Douglas DC-3 proveniente de Casablanca aterrou já noite na Granja do Marquês, fugindo da barbárie nazi, Ilsa Lund e Victor Lazlo logravam escapar do major Strasser, com o apoio de Rick e a complacência do capitão Renault. O checo, chefe da resistência na clandestinidade, esperaria em nova escala o necessário visto para a América, a partir de onde reorganizaria a oposição à ocupação hitleriana.

No aeródromo em Sintra, aguardava-os Mário Soares, destacado pelo sector intelectual do MUD para os acompanhar enquanto não se obtivesse o almejado visto. Mário e Ilsa trocaram olhares cúmplices, e, uma vez metidos num Ford de 1935, Mário levou-os para Sintra, onde os alojou no Hotel Netto, sob o falso nome de Walinski, polacos de visita a Elieser Kamenesky, o exilado ator que fizera de amigo dos animais no Pátio das Cantigas. A estadia seria de pelo menos duas semanas, Soares o elemento de ligação nesse período.

No dia seguinte, já acompanhado pela jovem Maria Barroso, levou-os a conhecer o Estoril e a costa, Ilsa, mais faladora, interessou-se pelo português:

-Já alguma vez esteve em Paris, Mário?

-Nunca, miss Ilsa, embora tenha a maior paixão pelos escritores franceses. O Anatole France, o Malraux, que é nosso camarada sabia…-comentou, num francês arrevesado, línguas não eram o seu forte.

-Ah Paris... -suspirou, transportada para as recordações duma existência curta mas recheada de desencontros. Em Paris fora feliz com Rick e aí o perdera, em Casablanca, madrasta, de novo a vida os cruzara sem voltar a juntar.

Mário era um idealista. Recrutado para célula intelectual dos comunistas, os contactos com a resistência no exterior eram-lhe familiares, tinha como controleiro um professor de geografia do Colégio Moderno, o circunspecto Álvaro Cunhal. Curioso, sondou Victor sobre o curso da guerra. Subitamente despertado, o checo ganhou entusiasmo na voz:

-A Résistance está muito activa, Mário, os partisans estão espalhados por todo lado e muitos patriotas lutam contra os ocupantes. Vichy, creio, estará por dias. Em Lyon a propaganda incrementou-se desde que mataram o Marc Bloch, sabia?

-Quando a guerra acabar, também aqui Salazar será afastado, Victor. Ele faz–se passar por neutro, mas é um germanófilo convicto. Lisboa está infestada de alemães, por estes dias, e você é um alvo, tem de se resguardar. Não vos aconselho que saiam de Sintra até chegarem os papéis! –recomendou,  Maria concordava.

Os dias seguintes foram descontraídos. De manhã, passeio até Seteais, pela tarde, lendo e escrevendo cartas, um momentâneo descanso de guerreiro, porém, angustiado, e sempre com o pensamento nos camaradas, em Praga e por toda a Checoslováquia. Vaclav fora capturado e internado em Teresin, muitos estavam na clandestinidade e em parte incerta.

Duas semanas depois, descendo para o pequeno-almoço, Ilsa reparou em dois vultos, com malas de viagem, falando com o rececionista do Netto. Um, alto, com gabardina branca e um chapéu preto, o outro, negro, falavam inglês e exibiam uma reserva para o hotel. Sentiu um frémito na espinha quando de súbito reconheceu as personagens, familiares afinal: eram Rick e Sam, o pianista do Rick’s, em Casablanca, logo correndo para eles, com incontida alegria. Surpreendidos, voltaram-se, provocando no negro um sorriso franco e sonoro:

-Por aqui, miss Ilsa? Gosh, o mundo é mesmo pequeno! -saudou sorridente o velho Sam.

-Que fazem aqui, quero saber tudo! -Ilsa ganhou um ânimo jovial, de quem reencontrava quem nunca quisera perder. Meio retraído, Rick sondou-a:

- E… Victor…?

-Está no quarto, escrevendo. Mas, digam-me, o que fazem aqui, na Europa?

Antes que Rick respondesse, o pianista adiantou as novidades:

-Mr.Rick vendeu o café, miss Ilsa, vamos a caminho de França. O capitão Renault foi colocado em Marselha, e convidou-nos para abrir lá um casino. Depois de a guerra acabar, vai ser o nosso novo sócio.

-Que bom para vocês…-comentou Ilsa, Rick, ainda surpreso, estava parco em palavras. De novo o destino os juntava e logo preparava para separar, nunca fruindo mais que breves momentos de felicidade.

Sabedor da chegada, Victor desceu a cumprimentar os amigos, em trânsito, e com destino oposto ao seu. Nessa noite, jantaram no salão do Netto. Quatro vidas com rumos diferentes, em jogo de sombras numa Europa destroçada, reuniam-se numa bela e serena vila portuguesa, para quem a guerra chegava sobretudo pela praga dos racionamentos. Depois do jantar, Victor recebeu uma chamada de Mário, Sam, premonitório, levantou-se para fumar um cigarro, deixando-os a sós. Na varanda do hotel, com vista para as muralhas mouras, e com as chaminés alvas do palácio mesmo ao lado, ficaram em silêncio uns momentos, deixando esvoaçar a baforada do cigarro na noite fresca. Passada alguma hesitação, Ilsa achou oportuno falar:

-Rick, eu….

-Palavras não alterarão nada, Ilse –interrompeu o americano, pondo-lhe um dedo nos lábios. -Victor precisa de ti, e eu nunca te poderei dar a felicidade que mereces. Somos pessoas vindas de mundos diferentes e eu hoje não pertenço a nenhum.

Terminado o cigarro, Rick saiu do hotel, a deambular sem rumo, a noite estava amena, brumosa um pouco. Acabrunhada, Ilse passou ao salão onde entretanto Sam descobrira um piano já velho. Instintivamente, agarrou-o pelo braço e fez-lhe um pedido:

-Toca, Sam.Toca “As time goes by”….

O velho pianista hesitou ainda, mas anuiu, puxou do banco e uma vez mais a nostálgica melodia ecoou, desta feita no salão do Netto. Definitivamente seguiriam o seu rumo.

Três dias depois, Mário e Maria levaram Ilse e Victor ao aeródromo, a caminho da América, enquanto Rick e Sam voavam para o sul de França, ao encontro do seu novo negócio.

A guerra acabou e Victor Lazlo finalmente voltou a Praga, mas novo percalço aí esperava. Estaline, o novo senhor, substituíra os anteriores ocupantes por outros da sua confiança, adiando por vários anos a esperança na liberdade. Acabou preso, e morreu em 1950, amargurado e sem ver o seu país livre. Ilsa foi para a América, então, e dedicou-se a escrever livros para crianças. Rick e Sam, depois de uns anos em Marselha, instalaram-se em Cuba, e lá abriram um casino, onde pontificava um cliente especial e admirador de Sam, um tal Ernest Hemingway. Amargurado e refém do álcool, Rick acabou vítima da cirrose, por altura da revolução cubana.

Por cá, Mário e Maria casaram, no fim da guerra, ele acabou por se afastar dos camaradas, e encetou uma carreira política reformista, sempre contra Salazar, contudo. Ainda hoje, na sua casa de Nafarros, entre as centenas de livros e quadros, uma foto emoldurada de Victor e Ilsa recorda os desencontrados compagnons de route de passagem por um país pardacento no já remoto ano de 1943.

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