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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Águas passadas não tornam a passar

Em mais um aniversário do massacre de Santa Cruz



Novembro de 1991. Em Dili, António despedia-se no aeroporto de Maria, a jovem esposa que enviava para Portugal, fugindo ao regime indonésio, os amigos nas montanhas precisavam de ajuda e para ele não era ainda tempo de partir. Em Lisboa, familiares acolheriam Maria até que chegasse, Timor sangrava nas mãos do ocupante enquanto o mundo calava, adormecido. Uns dias depois, a 11, faleceu um companheiro, abatido em recontros com os indonésios, e no dia seguinte, a 12, António e mais amigos acompanharam o seu funeral no cemitério de Santa Cruz. O ambiente estava tenso, ao levantar de voz de um jovem contra a presença dos ocupantes, militares indonésios dispararam, abatendo num ápice e à queima-roupa dezenas de timorenses. António fugiu, assustado, e pelo caminho tropeçou. Ao tombar, sentiu cair-lhe em cima um corpo, antecedido de um tiro silvante. Deixou-se ficar, como se estivesse morto e até que parassem os disparos, e assim ficou uma meia hora, com o cheiro a morte envolto em sangue. A dois metros, morto, um jovem segurava as flores que levara para o enterro.

Mal o tropel acalmou, António escapuliu do cemitério, e durante a noite, a pé, fugiu para as montanhas, a juntar-se aos camaradas das FALINTIL, não estaria seguro em Díli. Os indonésios deram-no como morto, sem curar de o procurar, em Lisboa, semanas mais tarde, Maria recebeu a notícia da morte do marido, inscrito no meio duma lista de baixas.

Durante os oito anos seguintes, António sobreviveu nas montanhas entre os guerrilheiros, as aldeias, cúmplices, proporcionavam protecção, o drama timorense arrastava-se e parecia não vir a ter fim. Preso em Cipinang, Xanana era o Mandela da Ásia, o Nobel a Ramos Horta e Ximenes Belo ajudara a dar notoriedade ao drama maubere. Só em 2000 a Indonésia retirou, e finalmente António desceu o Ramelau.

Em Lisboa, com o passar dos anos, Maria acabou casando com Jorge Carrascalão, um patrício de Baucau, de quem teve um filho. De António, nem uma foto sobrara, e a vida continuou. Auxiliar numa escola, de Timor lembrava os cheiros, as montanhas, e uma vaga recordação de António, que um filho e Jorge com o tempo abafaram.

Finda a guerra, António ingressou nas forças armadas de Timor e chegou a coronel. Um dia, já em 2012, veio pela primeira vez a Portugal, integrado numa missão militar. Sem ter voltado a casar, procurou Maria, só o Serafim, um primo que há muito não via por cá vivia, ao dar com ele empalideceu julgando ver um fantasma, há dezoito anos que o faziam morto, naquela manhã fatídica. Depois dos abraços, e a medo, António perguntou-lhe pela companheira:

-E Maria….

Serafim, baixou os olhos, sondando o que saberia ele da esposa:

-Não voltaste a falar-lhe?...

-Perdi-lhe o rasto. Nunca pude vir a Portugal, mas sei que fui dado como morto nessa altura. De certa forma, foi o que me valeu, assim pude sobreviver nas montanhas…

Serafim fez uma pausa, e pondo-lhe a mão no ombro, esclareceu o primo:

-Maria fez luto por ti uns anos,António, mas depois, voltou a casar. Tem hoje um filho, com 14 anos, e mora aqui perto de Lisboa. Olha, trabalha na escola do filho, o meu também lá anda…

António fez silêncio. As cicatrizes do corpo não haviam posto cobro às da alma, um mundo em guerra e vários mares um dia os separaram e o destino, inexorável,  fizera o resto. Para os vivos, António estava morto, mártir em Santa Cruz. A vida que ressuscitara Timor, para sempre o apartara de Maria.

-Posso vê-lo? -pediu António, num turbilhão de emoções.

-Claro. Olha, logo à tarde vou buscar o meu José Alexandre à escola. Maria estará lá, geralmente ela sai à hora do filho e vão juntos para casa, vou-tos apresentar.

-Não! - António tinha outra ideia - não quero que saibam quem sou. É tarde para desenterrar o passado. O que teve de ser, assim ficará…

Pela tarde, com António sem o uniforme militar, foram até à escola. Vários miúdos brincavam no pátio, a um canto, dois moços de feições mauberes mandavam mensagens pelo telemóvel, ao longe, uma senhora de cabelo esbranquiçado chamava-os. António sentiu um frémito na espinha. Era ela, era Maria. Mais velha, mas a mesma beleza de vinte anos antes. No lado oposto da rua, António recolheu-se atrás de uma árvore, enquanto Serafim se dirigiu aos jovens e os levou até António:

-Olhem rapazes, este é um amigo meu de Timor, o coronel António, cumprimentem-no!

Admirados por conhecerem um militar de Timor verdadeiro, cumprimentaram, mais curioso, o filho de Maria, quis saber coisas:

-És amigo do Xanana?

-Sim, sou, ele agora está mais gordo… E é do Benfica, sabiam?- melancólico, António olhou fixamente o miúdo, poderia ser seu filho.

-Alguém aqui em Portugal te conhece? -quis saber o garoto, nunca ouvira os pais ou Serafim falar deste António, militar em Timor, e pelos vistos importante. António fez uma pequena pausa, e rematou sorrindo:

-Não. Ninguém! -com os olhos, cúmplice, mirou Serafim, e em silêncio ficaram ambos olhando o céu, ameaçava chover para os lados de Sintra.

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