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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A tragédia grega e a ópera bufa portuguesa


Não, a Troika não era uma dançarina de Leste dum qualquer night-club de Lisboa, nem o gerontocrático Politburo que dirigiu a União Soviética no tempo de Brejnev. Esta troika com que diariamente nos atazanam os ouvidos, foram tão só uns capatazes da finança europeia que ninguém elegeu, impondo medidas que nenhum Parlamento aprovou, não respondendo perante o Parlamento Europeu, mas tão só perante essa figura omissa no Tratado de Lisboa chamada “Eurogrupo”.
Sejamos claros: o FMI é uma instituição vocacionada para as crises de pagamentos, um regulador criado após Bretton Woods, e tido como o Godzilla dos desgovernados. Só que se Godzilla assustava e dominava, também destruía tudo à sua passagem. Já os nossos “amigos” da EU disseram-nos: emprestamos dinheiro, e vocês fazem esta dieta, não para serem um país melhor e voltar a crescer mas para ver se ao menos nos pagam de volta. Submissos, os políticos reúniram com eles a “negociar” profundamente o draft que já traziam alinhavado, mas como capatazes dos Junots e Beresfords do século XXI. Em Belém, o D. João VI de Boliqueime e sua Carlota Joaquina tudo observaram sem intervir. Claudique o país mas fique o algarvio “aliviado” a observar cagarras.
 A troika pensou na fuga de capitais, no branqueamento ilícito ou nas off-shores sorvedoras? Não, que se podia afugentar os investidores. O povo já está habituado, e no cinto português há mais furos que cinto para apertar. Os municípios queriam discutir o seu futuro com critérios de respeito pelas populações e tendo em vista reduzir assimetrias? Não, juntem-nos todos para reduzir as despesas. Os funcionários são parasitas? Há que desparasitar, esquecendo a troika  ser ela um bando de simples funcionários intermédios, que os chefes (um deles até português, por sinal)nem se deram ao trabalho de cá vir, deixando a tarefa aos burocratas que puseram o país em sentido e os políticos a arfar, de língua de fora. Se é certo que é preciso dinheiro, e há que pagar, seria de esperar um pouco mais de respeito por um país com novecentos anos, onde os fundadores já muitas voltas devem ter dado no caixão. Almada Negreiros tinha razão quando dizia que o pior de Portugal eram os portugueses…
A dívida virou obsessão e as pessoas ,números, em relatórios anódinos dos eurocratas e seus mandantes lá para os lados do Terreiro do Paço,  fugindo os portugueses para um exílio forçado, escapando dum país que lhes nega Futuro. O Governo tem o isqueiro da fogueira social, e actua achando que tudo deve ser acatado, louvando os portugueses como um povo pacífico.  Pacífico, mas não manso. É um direito natural lutar pela sobrevivência, contra a fome e pela dignidade, sobretudo quando não se contribuiu para o descalabro das contas e nenhum dirigente político foi levado ao banco dos réus por gestão danosa. Os gregos, temerários, poderão cair, mas cairão de pé, não de cócoras como nós, os “bons alunos”, apaniguados de Berlim e do diktat financeiro
Dantes havia Europa e europeus. Agora há os contribuintes alemães e finlandeses, os despesistas portugueses, os desgovernados gregos e os desempregados espanhóis. E um barco à deriva, que, afogando-se, ainda dá instruções do navio almirante. Devem os remadores agrilhoados esperar pelo naufrágio, para só então se tentarem safar? Deve pactuar-se com o fim dos serviços de saúde, da escola pública, do Estado Social e tudo o que os arautos do Portugal de sucesso fizeram para voltarmos a ser o país da tanga?
 
Tal como o cão de Pavlov, sem osso não há saliva, mas pode haver dentada. É pois de prever que a resistência tenha um limite, que se sente nos assaltos e roubos que preenchem os noticiários dos jornais e tablóides, na violência doméstica, nas depressões e nos ajuntamentos de massas, só se arranjando escape nas novelas do futebol ou destilando fel nas redes sociais.
Esquecem muitos que foi em Portugal que se queimaram judeus, se executaram os Távoras, que aconteceram lutas fratricidas entre liberais e miguelistas, que um rei e um presidente foram assassinados no século XX, a par dos exemplos pouco pacíficos da camioneta fantasma, da Carbonária ou das FP-25. Como escreveu o poeta Aleixo “Vós que lá do vosso Império/Prometeis um mundo novo/ Calai-vos que pode o povo/ Querer um mundo novo a sério".
Quererá?

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