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sábado, 6 de junho de 2015

"Histórias Com Sintra Dentro"- A crítica de Miguel Real

É com prazer e consideração que reproduzo a crítica que o escritor e ensaísta Miguel Real fez do meu livro "Histórias Com Sintra Dentro"


FERNANDO MORAIS GOMES



O ROMANCE DE SINTRA



Histórias com Sintra Dentro (2015), livro singular de Fernando Morais Gomes, acabado de ser publicado, bem poderia ser designado por “o romance de Sintra”.

Fruto de uma poderosa imaginação, harmonizando o pormenor mais ínfimo com as múltiplas visões gerais sobre Sintra (Romantismo, Misticismo, Sintra Templária, Sintra Medieval, Sintra Turística…), tomando como base os inúmeros factos e as inúmeras lendas sobre a Vila, Fernando Morais Gomes escreveu um brilhante livro de contos/crónicas ou crónicas/contos sobre o tema que como presidente da Associação Alagamares há muito o preocupa e lhe move dos dias como uma espécie de “guardião cultural” do concelho.

Dividido em duas partes, “Viagem Espectral” e “Café com Adoçante”, Histórias com Sintra Dentro reparte-se entre a historiografia ficcional do concelho (I Parte) e a narração de pequenas histórias actuais (II Parte).

Deste modo, o autor inicia o livro com um relato sobre a cosmologia mítica de Sintra, celebrando a aliança entre os moradores (os Terráqueos) e a Serra, bem como as relações entre o panteão dos deuses gregos, Ulisses e um filho deste que teria aportado a um “alagamar”, junto ao rio das Maçãs. Do mesmo modo, relata as antigas invasões nórdicas que teriam assolado “Xintara” e Colares. A crónica/conto “Alla u akbar!” introduz o reino mouro em Sintra e, de imediato, a sua conquista por D. Afonso Henriques.

E assim o livro continua, atravessando os momentos mais importantes da história da Vila, até se findar já este século, em 2011, com a narração de uma estória exemplar sobre o abate indiscriminado de árvores. Pelo meio, ficam 190 pp. com numerosas narrativas, algumas factuais, outras ficcionais, outras, ainda, biográficas relativas às mais importantes figuras que fixam para todo o sempre a História de Sintra.

Não se tratou de reunir provas documentais nem de consultar espólios ou registos de fidelidade absoluta ao passado segundo o método historiográfico alexandreherculiano, mas de, com base nestes, na experiência pessoal do autor na sua infância e adolescência em Galamares/Colares e seguindo o relato popular de lendas, estórias, contos, mitos – e certamente o resultado de inúmeras leituras consultadas nas bibliotecas do concelho - de reunir num volume único o grande espólio da tradição histórica de Sintra.

Trata-se, portanto, de juntar num só texto a cultura árabe remanescente nos saloios e o impulso romântico da Condessa de Edla e D. Fernando II, de ligar a visão musical erudita de Olga Cadaval e as histórias dos poetas e contadores populares sobre fantasmas e espectros da Serra, de reunir a visão da caravela regressada da viagem marítima para a Índia presenciada por D. Manuel na Peninha às aventuras trágicas de D. Sebastião, de agrupar o segredo dos Templários às investigações histórico-míticas de João Rodil, de associar o alto egotismo narcisíaco de M. S. Lourenço às tertúlias contestatárias de Mário Dionísio e José Gomes Ferreira na década de 1950, das intrigas populares entre terras e entre vizinhos à eterna rivalidade entre Sintra e Lisboa, da instauração da República em Sintra às desgraças da I Guerra Mundial registadas em pedra na Correnteza…

Têm agora os sintrenses à sua disposição o elenco deste longo repositório cultural de 800 anos que é a história de Sintra. Basta consultar o livro e segui-lo página a página e, se formos vocacionados para a ficção, lê-lo com prazer; se formos vocacionados para a História, extrair de cada conto/crónica o sumo histórico.

Inspirado no realismo histórico (há sempre um fundo real, ainda que lendário, ou a experiência pessoal do autor para os tempos mais recentes em todos os contos/crónicas) e dotado de um estilo sintacticamente flexível, compondo frases longas, Fernando Morais Gomes utiliza um léxico ora popular, ora psicológico (baseado no conhecimento empírico dos homens), ora erudito, um vocabulário ora concreto (algumas estórias podem ser lidas por ou para crianças), ora abstracto, Histórias com Sintra Dentro merece ocupar um lugar especial nas bibliotecas do concelho e nas pastas dos professores como material de apoio às aulas sobre a longa história da nossa vila e concelho.

Parabéns ao autor.
                                                           

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