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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Unir as periferias para uma nova centralidade


Muito se fala das virtudes da lusofonia e do que a mesma pode significar num mundo globalizado, envolvendo povos com um passado comum e um futuro expectante. Contudo, da retórica da política à realidade das iniciativas vai muitas vezes a imensidão dum deserto, abafado pelo gongorismo da palavra vã e a anemia da verba parca em altruísmos para um português ora atlântico e a norte  ora açucarado e a sul.
Em Sintra, por estes dias, a Viagem que um dia outros portugueses intentaram vai ser feita sob a forma dum retorno uterino e fraterno a propósito da mais nobre das parcerias, a cultura, e a sua expressão mais viva, as artes de palco.
Pela mão do Chão de Oliva, Sintra vai abrir os  braços vetustos e odorizados pela Serra-Mãe, e com irmãos de outras geografias, familiares e cúmplices, fazer acontecer Cultura, incensar o Verbo que é nosso, e potenciar parcerias, na mais pura e eficaz forma de diplomacia que é a do reconhecimento do Nós, nestes dias de iniquidade.
Periféricos nos reencontramos, mas dessa constatação se poderá partir para a construção de novas centralidades, as da união em torno de fios condutores que aproximam os povos, enriquecem o Outro que enfim seremos Nós, criam novas rotinas e abrem caminhos que já antes foram percorridos e que a História recente ofuscou, confundindo identidades e desnorteando horizontes.
Vindos de Matosinhos ou Brasília, do Mindelo ou da Beira, durante doze dias nos unirá a palavra dita e a emoção declamada, a tonitruante experiência de outros palcos em lutas pela sobrevivência ou por uma legítima afirmação, e tudo sonoramente transmitido nessa língua que é de Pessoa e Craveirinha, Ondjaki ou Jorge Amado.
Em Sintra, terra onde diletantemente se enche a boca de Cultura mas a Cultura resiste na intermitência de iniciativas e avareza de recursos, o Chão de Oliva, pioneiro hoje como no passado, volta a dar o exemplo, e o seu  pequeno teatro, singelo e resistente, será por esses dias a ágora iluminada da língua na qual secularmente celebramos, sofremos e lutamos. Lá estaremos nesses dias de Março.

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