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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sintra 2047


Sintra, 2047.O presidente da Câmara, Djaló Varela, quinta geração de cabo-verdianos da Tapada das Mercês, agora património mundial, saía dos Paços do Concelho no velho Sintra Fórum, para reunir com o novo ministro europeu da Economia. Lech Zibrinski despachara verbas para obras, e estaria em Lisboa nos dias 3 e 4.De TGV, a partir de Bruxelas seriam 4 horas, com paragens em Paris e Madrid, com ele e Diógenes Durão, o delegado para o distrito de Portugal, acertaria as verbas para o novo CICV de Sintra.

 
O concelho crescera, e chegara aos 700.000 habitantes, mais de metade de origem africana, abrira um canal de TV, o Sintra Sky Network, dirigido por Gustavo Facas, neto dum conhecido DJ dos anos 10, e o vereador dos media, Simeon Pereira, descendia de romenos radicados no Mucifal.

 
Varela era dinâmico e audaz. Antigo rapper, eleito através do velho Facebook com 2/3 de “gosto”, tinha projetos para o concelho: a Cidade do Cinema abriria em 2048, bem como a Universidade Cristiano Ronaldo, em homenagem ao comendador, agora com mais de 70 anos, proprietário do Praia Grande Hilton e dum resort de luxo na Pena. No plano desportivo, a fusão de todos os clubes desportivos originara o Sintra SAD, presidido pelo antigo internacional Nani, que finalmente disputaria a I Liga.

Com 50% de desempregados, designados pelas estatísticas como inativos orgânicos, criara um plano de reforma para aqueles que tivessem frequentado ao menos dez cursos de formação profissional. Mas o principal problema era a violência. Ganhara as eleições com a promessa de legalizar a violência urbana, desde que não se ultrapassassem cinco roubos por esticão e três assaltos por ano, considerados falta leve no cadastro digital. Apesar disso, todas as noites havia desacatos no metro Oriente-Mem Martins, obrigando à frequente intervenção da Força Ninja, recrutada entre veteranos da guerra de 2036 contra a Coreia do Norte, onde Portugal participara integrado no Exército Europeu.

 
O telemóvel ligou. Simeon anunciava que o busto do escritor Miguel Real estava terminado, e pronto para ser inaugurado na Volta do Duche. Contando milhares de downloads de e-books, era uma referência de Sintra, desde que em 2016 ganhara o Nobel da Literatura. Ali ficaria, ao lado do Memorial à Grande Hecatombe de 2011, quando Portugal caíra às mãos da troika. Sobreviventes das únicas duas freguesias de Sintra ali depositavam flores com frequência, exorcizando esses anos de fome e incerteza, em que 90% da população perdeu o emprego, e sobreviveu com o apoio humanitário do Ruanda e do Haiti.

 
Passados os anos, as coisas mexiam de novo, e com Varela, Sintra voltava a ser cool e progressiva. A imagem romântica em que se insistira no passado não pegara, e desde os anos vinte que se apostava nas indústrias criativas de base tecnológica, e em empresas startup, em Morelena e Negrais. Os call centers com videoconferência, os transgénicos de estufa, a par de fábricas de carros a biodiesel no Cacém, foram a base da retoma nos anos 20. Doces tradicionais como a queijada ou o travesseiro haviam desaparecido, substituídos por uma versão light sem açúcar e ovos, dentro do plano de combate à obesidade, que igualmente banira o courato, o hambúrguer e o ice tea, apostara-se no teletrabalho e na privatização dos serviços: o urbanismo era agora gerido por uma consultora de Macau, as obras municipais pelo consórcio Pires e Rodil, franchisado duma empresa de Taiwan, pelo que apenas restavam 70 funcionários em permanência, ganhando cerca de 300 yuans por mês (o yuan, antes moeda chinesa, era agora a moeda mundial, depois do estoiro do euro em 2015, com a intervenção do FMI na Alemanha). Até a justiça fora privatizada, e entregue por cem anos a uma holding de magistrados, a Isaltino e Associados, com sede nas ilhas Caimão e escritório em Lourel, nova sede da comarca.

 
Após a reunião com Zibrinski, e sob a sua presidência, finalmente Sintra teria um Centro Integrado para a Conservação da Vida-CICV, algo antes chamado hospital, uma empresa de saúde onde os doentes comprariam quarto e assistência em time-share, podendo trespassá-lo, após o tratamento e prévia liquidação de impostos. O acesso seria permitido após um chip do genoma confirmar a doença e a situação fiscal do candidato, e seria gratuito para todos que se houvessem reformado aos 90, e provassem viver em casa dos pais. Em 2060, finalmente terminaria a revisão do Plano Director, depois de 70 anos em análise, e a torre biónica da Adraga, com 1000m de altura e dez pisos de marisqueiras, enfim ficaria pronta. Então sim, o Admirável Mundo Novo chegaria a Sintra, pelas providenciais mãos de Djaló, e longe ficaria a memória dos terríveis anos 10, dos acampamentos de desalojados em Campo Raso, vítimas do furacão Gaspar, que em muito ultrapassara o terramoto de 1755, e da Grande Hecatombe, geradora da Guerra 2013-2018, entre inspectores das Finanças e milícias da Resistência.

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