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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Procissão Interrompida



O infinito. Nele que se fixava o olhar perdido da Gracinda, os olhos baços de muitos dias chorados, em tempos esperançosos. Diariamente encetava a caminhada peregrina até ao café do Jimmy, carinhoso nome do Jeremias, novo no bairro e antigo universitário, sua única distracção na vida capturada pelas varizes e reumático. O marido partira há muito, com o filho na Suíça, oitenta lamurientos anos se arrastavam rua acima a ver passar os outros, que a vida por ela passara já.
Naquela terça-feira, mais uma das muitas e invernosas que com inclemência açoitam Sintra, pontualmente às três subiu a ladeira que conduzia ao café do Jimmy, e postou-se na cadeira do costume. O café era recente, não tão recente que não tivesse já criado hábitos, atraindo jovens a estudar e clientes a experimentar as tostas ou saborear o abafado. Além da Gracinda, a decana improvável, jovens haviam adoptado o espaço, que aos poucos criava  familiaridades, arrastando alguma fauna em transumância, ensaiando jam sessions, insegura no acorde mas puxada pela onda.
A Gracinda e alguns velhotes que, embalados pela guitarra dos putos, por vezes puxavam da voz já roufenha, emulando fados antigos, conferiam ao bar uma atmosfera felliniana. Ali, entre piercings e tatuagens, ícones de tempos novos e irreverentes, juntava tempo ao tempo que a custo passava, suspirando e sorrindo, um sorriso de outro século e outros tempos, hoje a sépia, rodeado de holográficos rostos, desaparecidos, deixando escapar a areia na ampulheta dos dias sem razão de ser senão esperar o dia em que se juntaria ao Armindo, há vinte anos já lá. Sentia esse dia próximo, ao subir a viela já mais de uma vez dera conta dele a seu lado, arrastando-se a caminho do café do Jimmy para ver a vida passar, já sem vida para passar.
O Jimmy sorriu à chegada da velhota, improvável cliente num bar de gente nova. Prestável, muitas vezes acorria a dar-lhe o braço, quando enfim, suspirando e despedindo-se várias vezes, voltava à casa vazia no fim da viela, numa procissão lenta e sincopada que invariavelmente fazia parar os carros para atravessar a estrada, em marcha lenta, recolhendo às memórias e ao retrato do Armindo, que tão cedo a deixara.
Na terça-feira, a Gracinda chegou cansada, mas mais do que o habitual. Saudou os presentes, com a voz entramelada, logo se acolhendo na habitual mesa de onde, urbi et orbi,saudava os passantes, que, achando-a patusca, lhe acenavam, ou tiravam uma foto até. Os olhos, habitualmente vivos e brilhantes, apesar dos anos, estavam nessa tarde mortiços e baços. Pediu um carioca de limão, e deixou-se ficar, mais silenciosa que o costume. O Jimmy, voltando ao balcão, achou-a menos expansiva, e meteu conversa:
 -Então, D. Gracinda, está tudo bem consigo?
 -Está tudo, meu querido, obrigado. Sabe, tive um sonho esta noite, credo, que me deixou cismada!. Imagine que sonhei com o meu Armindo, aqui sentado e a beber um abafado comigo, no fim, pagou a conta e saímos os dois até casa. Mas a meio do caminho ele desaparecia, deixando-me sozinha e sem nada em volta do braço, e eu, com náuseas, acabava caída, à chuva, sem ninguém perto para ajudar…
-Ora, D. Gracinda, não se apoquente, os sonhos nem sempre traduzem o que o nosso subconsciente pensa- asseverou o Jimmy, algum tempo num curso de Psicologia dava-lhe a autoridade para interpretar o sonho. Apesar de sentada, a Gracinda colocava-se na consulta do especialista, desviado para outras consultas, muitas delas balcânicas, passadas ao confessionário-balcão, ouvindo os desabafos em torno de providenciais abafados.
 -Pois é, pois é…isto está um frio, meu querido… hoje, acho que vou para casa mais cedo, como uma sopa quentinha e vou meter-me na cama, a ver um pouco de televisão. E levantando-se despediu-se com um aceno para os demais, enfiados nos computadores e na entropia dos headphones.
Como habitualmente, as artrites e o reumático deram parte de fraco e um dos jovens com um computador deu-lhe o braço, levando-a a atravessar a rua e deixando-a ao cimo da viela, onde só desceria os metros finais.
Nem dez minutos eram decorridos um burburinho pareceu vir do lado da viela da Gracinda. Curioso, Jimmy foi espreitar, seguido de alguns dos jovens. Três velhotas, com um ar alterado, rodeavam um volume, que não distinguiu o que fosse, talvez o cão da Telma, estava sempre a escapulir. Aproximando-se, o corpo da Gracinda jazia no meio da rua, de olhos abertos e sorriso nos lábios. Uma síncope fulminante interrompera a procissão a caminho da casa vazia, desta vez, longe demais. Rodeado pelos putos do café, Jimmy ficou em silêncio, cerebral nestas coisas, não lhe ocorreu nada para dizer, registando o rosto esbranquiçado da velha peregrina de dias vazios. Retornando ao bar, enquanto a sirene fazia anunciar a chegada da ambulância, e onde já um turista aguardava  um abafado, na direcção da Vila Velha, alheios à agitação que o sucedido trouxera à tarde invernosa, Jimmy viu passar um casal idoso de braço dado, de costas, um deles pareceu-lhe familiar. Curioso, foi-lhes no encalço. Já na Volta do Duche, serenos e felizes, lá seguiam a Gracinda e o seu Armindo, que enfim voltara para a buscar e juntos continuarem a Estrada que um dia juraram trilhar.

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