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segunda-feira, 11 de março de 2013

Noites de luar



As escarpas de Sintra lembravam-lhe a Irlanda natal. Marechal de Sua Majestade em terras lusas, William Carr Beresford, comandante em chefe na ausência do Príncipe Regente, era senhor de Portugal, onde levava já onze agitados anos. Toulon, Índia, Egipto, Buenos Aires, pelo Império Britânico se havia desdobrado em perigosas missões, mas desde que em 1807 ocupara a Madeira e aí aprendera português, viu-se apontado como o homem da Coroa inglesa num país abandonado pelo seu governo. Corpulento, rosto irregular e sem o olho esquerdo, vazado por um tiro, marechal do exército português desde 1809, nomeado pelo Conselho de Regência, Beresford aproveitara a reorganização das forças militares para nelas introduzir os métodos do exército britânico. Era um organizador. Criara depósitos de recrutamento em Peniche, Mafra e Salvaterra, distribuíra novas armas e equipamentos, levara o exército, de inspiração prussiana, a manobrar à inglesa. Metódico, introduziu as ordens do dia para informar o exército, e apurar a disciplina: tanto se lhe conheciam mandatos de prisão ou para execuções sumárias, como louvores e promoções por mérito.

Nesse dia, 19 de Outubro, o spleen de homem das ilhas apossou-se-lhe do espírito, perturbado com os eventos da véspera, e saiu a cavalo para espairecer, a nortada do Cabo da Roca transportou-o para os Cliffs of Moher da sua Irlanda, a urze e arribas recordavam-lhe o burren xistoso e solitário da cinzenta Galway. A Smighton ordenou que ficasse na Junqueira, conspirava-se depois do enforcamento e receava-se subversão. Se meses atrás era o saudado libertador das hordas de Bonaparte, agora, após a execução do general Gomes Freire de Andrade, o povo já não estava com ele, acabada a guerra nada justificava a permanência dos ingleses. D.João VI não se decidia a voltar, e o povo reclamava por a um ocupante suceder agora outro.

Gomes Freire, antigo herói da Crimeia, oficial no exército de Potemkin e resistente de Schwensk, quando canhões suecos atacaram a marinha russa, regressara a Portugal após a queda de Napoleão. Grão-Mestre da Maçonaria, acusado de  conspirar contra o rei, fora na véspera enforcado por traição à pátria, junto com mais implicados, o julgamento fora polémico e tortuoso.

Caminhava junto da falésia quando o trote de um cavalo denunciou a chegada apressada de Smighton. O ajudante de campo assistira ao enforcamento e vinha contar os detalhes, Beresford, desviando o olhar das ondas furiosas, perguntou por novidades:

-Well?... Como correu?

-Já está,  Sir, usou-se baraço e pregão, como ordenava a sentença. Mas foi estranho. No momento em que a corda caiu em S. Julião da Barra, fez-se uma escuridão súbita no Bugio, e as gaivotas gritaram lancinantes. Não deixou de ser perturbador, parecia um sinal.

Angustiado, Beresford pensou se não fora um erro, a execução. O general era popular, havia pela certa criado um mártir. E logo à mão dos ingleses, os velhos aliados. Mas Gomes Freire conspirara, acusando o rei de déspota, chamando ao açougue do precário Império, assim se referira ao recrutamento para os combates pela posse de Montevideu, e para esmagar a insurreição no Pernambuco. A Beresford apelidara de ridículo aventureiro e desabonado comandante, tudo concorrera para esse desfecho. Ainda cansado do trote, Smighton continuou:

-Na assistência estava o primo, Miguel Pereira Forjaz. Andrade olhou-o, mas nada disse. Os outros onze foram executados no Campo de Santana. Rezaram, e aguentaram firmes. É um desperdício, marechal, estes portugueses não têm remédio, o país está em ruínas e eles digladiam-se uns com os outros.

-Problema deles, Smighton- rosnou o marechal, abrigando-se da nortada, que agora açoitava forte- problema deles!

Beresford soubera da conspiração pelo Visconde de Santarém.  Documentos apreendidos mostraram que estava em marcha um movimento cuja primeira fase era a criação de núcleos por todo o país. A decisão foi a de apresentar a documentação à Regência, que se assegurou do apoio do General Paula Leite, encarregue do governo das Armas da Corte, o qual emitiu ordens de prisão contra Gomes Freire e outros oficiais e civis. Antes de ser preso, Gomes Freire de Andrade ao notar a movimentação de tropas junto à sua casa, pensou mesmo estar a revolução em marcha, fardou-se e colocou as condecorações, até que lhe entraram em casa e foi  dada ordem de prisão.

Escurecendo, voltou a Lisboa, a noite  luarenta de Outubro acompanharia a viagem do irlandês. Sentindo-se em Sintra como em casa, percebeu que nesse dia uma página se virara e não seria a nortada doravante o único vento a soprar.

Três meses após as execuções, instalou-se no Porto o Sinédrio, por iniciativa de Manuel Fernandes Thomaz e Ferreira Borges, e o movimento liberal adquiriu consistência e coerência.Com o tempo, e perante a degradação nas ruas, Beresford foi ao Rio de Janeiro reclamar mais poderes,  D. João VI concedeu-lhos. Regressou a Portugal, mas já não logrou desembarcar. No dia da chegada, ocorreu o pronunciamento. Era 24 de Agosto de 1820, e a Junta Provisional de Lisboa, que substituíra a Junta dos Governadores, não autorizou que desembarcasse.

Nessa noite, disse adeus a Portugal. Era noite para ele, um imenso e esperançoso luar despontava para um pequeno povo ao sul da Europa. Por quanto tempo?

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