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quarta-feira, 6 de março de 2013

Luís e Tin-Na-Men



A carta de D. Francisco Barreto era seca e tinha o peso da autoridade régia: Luís Vaz de Camões, provedor dos Defuntos e Ausentes de Macau, acusado de irregularidades, deveria abandonar o posto. Jocosas redondilhas que publicara em Goa,  que o governador não viu com bons olhos, levavam ao seu afastamento, sem dinheiro para viver. Carreira para Lisboa, só depois da monção, a alternativa, sobreviver numa gruta em Patane, tempo consumido a escrever a história lusa, que quanto mais perseguido, mais celebrava em verso, soldado do Império pelo mundo repartido.

Inopinadamente, certa manhã soldados do Governador acercaram-se da gruta e ordenaram-lhe que os acompanhasse, o capitão do Nau da Prata queria falar-lhe. O Nau da Prata, carregado de valiosas fazendas, fazia a carreira anual entre a China e Goa e Francisco Martins, o capitão-mor, detinha-se em Macau para embarque de mercadorias e da guarnição que renderia a de Goa mais tarde. Miseravelmente vestido, e apenas com os papéis que levou da gruta, foi presente ao capitão, a bordo:

-Sois Luís Vaz de Camões, antigo Provedor dos Defuntos e Ausentes desta cidade?

-Sim, malfadadamente sou essa pessoa, que me quereis?

-Tenho ordens de vos levar prisioneiro. E a ferros, ordens expressas.

-E tanta galanteria deve-se a quê, dar-me-eis a mercê de saber?

-Ignoro. Porém, se não criardes problemas poderei permitir que usufruais de alguma liberdade a bordo. Com restrições. Olhando os papéis amarrotados que trazia debaixo do braço, questionou:

-E isso, que são? Despachos da Provedoria dos Ausentes?

-Não…-respondeu, irónico - tontarias de um português cativo…- aqueles versos, a que já dera muitos nomes e titulava Os Lusíadas, uns gatafunhos ilegíveis, não continham segredo algum, pelo que Francisco Martins deixou seguir, mandando-o conduzir ao porão.

A parafernália das fazendas misturava-se com o cordame e os boçais tripulantes, uns embarcados em Macau, outros cativos. Camões encostou-se a um canto, contemplando mais um destino perdido, a vida de novo repartida em barcos e enxergas do Império. Absorto, com o olhar perdido no rio das Pérolas, levou tempo a perceber que perto de si uma jovem nativa o fitava, sentada numa arca de madeira.

-Estais triste senhor? –perguntou a medo, um sorriso frágil numa cara pequena e arredondada.

-A tristeza é a minha companheira, e a dor o meu destino. Com tais cativas musas levarei este mar de lágrimas. E vós, quem sois, jovem donzela?

-Não me reconheceis, de Patane?

-Acaso pude viver em Patane sem meus olhos ficarem cativos de tão graciosa figura?

-Muitas eram as prisioneiras de vosso olhar, senhor…

-E por que nome responde tão bela flor-de-lótus?

Camões, cativo mas galanteador, esquecia já a nau onde o aprisionavam, para se prender a outros ferros que os deuses lhe punham à frente.

-Sou Tin-Na-Men, de Patane, e viajo para Goa nesta nau.

-Tin-Na- Men…A Porta do Paraíso. Outro nome não caberia melhor a tão graciosa figura…-elogiou, beijando-lhe a mão.

Em boa verdade, Tin-Na-Men embarcara atrás do homem que de longe contemplava em Patane, por vezes falando e esbracejando sozinho, mas sempre enamorado, todas belas, todas sonetos eternos e espontâneas redondilhas. Elas não o entendiam, mas sorriam, cedendo aos galanteios do incauto aventureiro.

Uma semana passou, do Mekong ao Índico, e Tin-Na-Men e Luís Vaz envolveram-se em paixão, novo destino se abria para o desgraçado provedor dos ausentes. De longe, o capitão-mor observava, não sem um sorriso complacente, apesar de  prisioneiro, até simpatizara com o desajeitado, sem um olho, irmão de armas afinal. Goa, nova escala de exílio, seria amenizada com a pérola de jade que deuses protetores enviavam.

À terceira semana, Zeus mudou o rumo à viagem, as águas tornaram-se revoltas, e piratas das Molucas cercaram a embarcação, sendo prontamente repelidos, ao que Luís Vaz ajudou. Os ventos e as ondas fragilizaram o Nau da Prata, porém. Francisco Martins mandou baixar as velas, que começavam a abrir fendas, descosendo-se. No Olimpo, Eolos soprava, castigador, em desespero, o capitão-mor mandou embarcar as mulheres num batel. Uma ilha se avistava perto, os homens a alcançariam a nado.

No momento do embarque e ao separarem-se, Luís e Tin-Na-Men apertaram as mãos, haveriam de se salvar para desfrutar do seu  amor em Goa. Camões, com os poucos pertences,  foi dos últimos a saltar para as águas tépidas e madrastas, levando os gatafunhados versos  na camisa. O pequeno batel, com Tin-Na-Men e as demais mulheres, depois de serpentear desgovernado, acabou porém impiedosamente engolido pelas águas. A sua mãozinha frágil, submergindo aflita, foi a última visão de Luís Vaz, náufrago da vida e de novo órfão do amor.

Em Goa, a sua via-sacra desditosa prosseguiu, um fugaz amor lhe fora dado e, avaro, logo roubado pelo destino. Tin-Na-Men, a sua Dinamene, virara princesa do mar profundo, qual frágil pérola retornando à concha, pequena e alva. Solitário sobrevivente do amor, numa praia daquela Goa sem sentido, a sua pena lacrimejando escreveu saudade na areia branca e fina: Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo, desta vida, descontente/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste/Roga a Deus, que teus anos encurtou/Que tão cedo de cá me leve a ver-te/Quão cedo de meus olhos te levou.

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