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quinta-feira, 14 de março de 2013

O glorioso clube de futebol


Virgílio Madureira cumprira dois mandatos como vereador na Câmara, incompatibilizado com a concelhia, não se recandidatou. Uns ingratos, vociferou, fora ele quem os metera lá, pagara inscrições e quotas, queriam agora o João Martins, o veterinário municipal, que ficassem com ele, pois, com a besta amiga dos animais. Oito anos a pugnar por estradas alcatroadas, centros de saúde, rotundas, orientara-lhes a vida, e agora isto. Chegou a pensar concorrer como independente, capciosos, os da oposição até o sondaram para uma empresa municipal, o seu apoio ainda valeria uns votos entre os mais velhos. Com a eleição renhida, nada se podia desprezar. Nesses oito anos, conseguira algum pecúlio, é certo, as empresas da família haviam ganho empreitadas, mas que culpa tinha ele se as únicas de jeito eram as do pai e do cunhado, nunca interviera nos concursos, simples telefonemas apenas.
O fim do mandato trouxe a necessidade de pensar no futuro, política activa não, melhor esperar que estes se desgastassem e no fim surgiria como salvador e compreensivo para salvar a câmara do desastre, como sempre, desinteressado filho da terra. Havia que encontrar uma montra onde sem estar na política, não estivesse longe dela. Pensou nos Bombeiros, mas os comandantes estavam de pedra e cal, quis adquirir um jornal que fosse a sua caixa de ressonância, mas os existentes tinham passivos proíbitivos. Finalmente, uma ideia: a presidência do Imortal, o clube de futebol, o mandato dos actuais orgãos terminaria daí a um mês, sem dinheiro e resultados, a despromoção era segura. Nunca vira um jogo da equipa, curioso foi a um até, e reconhecido pelo  público, lançou o tema das tradições clubísticas e de como era preciso ter um clube da terra na Primeira Liga, traria visibilidade. Ele, apesar de ocupado, faria o sacrifício pessoal, se necessário fosse, de constituir uma lista e até avançar com um aval para as obras do campo de treinos, conhecido como era, atraíria patrocínios, jogadores de topo, um treinador com créditos e até a televisão. O salto qualitativo tinha de ser dado.
A proposta animou os velhos adeptos, cansados das peladinhas e de jogos nos distritais, alguns, antigos jogadores já entrados na idade, aplaudiram, e aos poucos, em jantares e reuniões no escritório de Madureira, a lista foi ganhando forma, o vereador que não sabia o que era um canto e que julgava que os cinco violinos eram peças de museu, em duas semanas tirava fotos com a bandeira do clube ao lado e reiterava o seu clubismo desde a nascença, prometendo cem mil euros só para começar. Construiria uma grande equipa, um craque brasileiro que o Viegas, o antigo treinador , lhe sugerira, estava a caminho, assinara por cinco épocas.
Sem opositores, uns descapitalizados, outros descrentes, com uma lista de incondicionais recrutados no café do Bigodes, certo serão, depois do snooker, Virgílio Madureira tornou-se o 24ºpresidente do Imortal, com 97% dos votos, logo celebrados com uma rodada geral e a promessa de vitórias e obras.
Na primeira semana, num mundo até então estranho para si, surgiram os pequenos problemas: os jogadores tinham prémios de jogo em atraso, havia que pagar, a tesouraria estava nas lonas, mas o Lucas, o cobrador, garantia a chegada de verbas da Associação de Futebol e da Santa Casa, nos duches faltava água quente, até o Zezito, o craque brasileiro contratado ao Fanhões, ameaçava assinar pelo Alcains. Era um mundo novo. Na primeira saída da equipa, venceram por 2-1, na terça a seguir, à porta da direcção os jogadores reclamavam os 300 euros de prémio regulamentar, a ser pago na hora, atrasos dos patrocinadores obrigaram-no a pagar do seu bolso. Entre problemas e guerrilhas na direcção, ao fim de umas semanas, Virgílio Madureira começou a ficar cansado do clube e sem dinheiro, acossado por jarretas que tomavam o clube como seu, tais os anos que ali levavam. Os resultados começaram a desiludir, só com empates, e teve de despedir o treinador, o Vítor de Jesus, que desculpava a falta de resultados com a necessidade de dois trincos. Mais barato, optou por demiti-lo, e contratar o Alves do talho, que em tempos já treinara os júniores.
Um mês depois, uma carta das Finanças a cobrar vinte mil euros de IVA caiu na secretária, resultado de facturas falsas que anteriores direcções haviam passado, parte delas de favor, para ajudar a contabilidade de amigos, dez dias para pagar ou penhora de bens. Sem dinheiro em caixa e com quotas de cinquenta cêntimos, a situação era negra e os directores olharam para ele, esperançosos:estava na hora de verem os prometidos cem mil euros. Silencioso, Virgílio nada disse, e marcou uma reunião com os órgãos sociais, a situação era de emergência e os jornais já falavam no risco de o Imortal fechar.
Dois dias depois, à hora agendada, lá se juntaram os directores, o Tomás do videoclube, vice-presidente para as modalidades, e o eterno Serafim, que já estivera em oito direcções. Sócios antigos exigiam firmeza com as Finanças, contribuíam com seis euros anuais e queriam saber o que tinham feito ao seu dinheiro.
Passavam dez minutos das nove, um sujeito de blaser azul apareceu com uma carta para o presidente da Assembleia. Curioso, o dr. Figueiredo, igualmente médico do clube, abriu e leu em voz alta: pesaroso, o presidente alegava sérios problemas de saúde e pedia a demissão, confiante que o vice, e novo presidente pelos estatutos, o Tomás do videoclube, faria um grande lugar,conduzindo o clube ao lugar que merecia. Por ele, descansaria uns meses em Marbella a conselho médico, era outro o seu futebol e para ele chegara a hora de mudar de jogo.

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