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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Minhas memórias de Jorge Amado


Passam hoje cem anos que nasceu o Capitão da Areia, Jorge Amado, esse mago do Brasil dos jagunços, coronéis, quengas e personagens solitárias, todas elas imbuídas de universos intensos e vividos, num Brasil-Mundo sofredor, mas colorido e divertido, lutador e, sobretudo, baiano.
Recordo a leitura dos seus Subterrâneos da Liberdade, numa época em que por cá também a liberdade era esconsa e sofrida, bem como a sua figura imponente e branca de Pai Natal subindo da Avenida da Liberdade ao Parque Mayer, sempre com a inseparável Zélia, já depois de Abril e várias vezes depois, com os amigos portugueses que nunca esqueceu. Recordo também a mítica colecção dos Livros do Brasil, na qual devorei as suas obras, sobretudo as primeiras, o Jorge da Gabriela, da Tieta, de Jubiabá ou do Quincas. Recordo-o também numa Feira do Livro de Lisboa, já nos remotos anos 70, quando o cumprimentei e me autografou um exemplar da Tieta, que mais tarde o país inteiro veria nos episódios da Globo. E diariamente o apreciámos naquela mítica Gabriela a que deu alma, junto com seu Nacib, o dr.Mundinho, a Maria Machadão e muitos outros personagens dessa Ilhéus capital do mundo.
Quando há uns anos fui a Salvador, de imediato corri para a praia de Itapuã, a ver a casa onde viveu e onde descansa debaixo da copa duma árvore, e entre candomblés, capoeira e o colorido do Pélôrinho português e tropical pude visualizar esse microcosmos pujante de vida, cantado num português açucarado, onde a cada esquina surgia uma Dona Flor, um Capitão da Areia, cúmplices mães de santo e o sangue negro fundador do Brasil fazendo votos a Iemanjá.
Cada visita de Jorge Amado a Portugal era um regresso do avô velhinho, com a sua sabedoria feita palavra, trazendo o seu abraço forte e fraterno. Nunca recebeu o Nobel, mas soube como ninguém perceber a natureza humana, dos cafajestes, bacharéis, moleques da rua e perfeitos corruptos. Tempo pois de rever Jorge Amado e o seu maravilhoso mundo, pois afinal, Gabriela éis… meu camarada…

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