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terça-feira, 12 de julho de 2011

O Reviralho


Por estes dias é ver alguns amigos conectados com o partido do anterior governo preocupados com os lugares que podem vir a deixar de ter e outros adeptos do novo ansiosos por um telefonema para um qualquer lugar na nova administração. Nos bons velhos tempos, era nisto que se traduzia o reviralho e não parece ter mudado muito desde então. Uns falam em boys, mas, afinal, se há jobs...
Um dos problemas endémicos da sociedade portuguesa é que as reformas e os dirigentes não subsistem para lá do tempo de vida dos seus chefes, cabendo a cada governo que se sucede desfazer tudo o que o anterior fez ou fazer tábua rasa desse trabalho, muitas vezes produto do esforço de muitos técnicos sem partido e que ciclicamente se deparam a cada  novo dirigente com a afirmação de que “agora é que isto vai mudar…”. Quantos que trabalham em organismos públicos não ouviram ao longo dos anos esse discurso e quantos estudos e relatórios não jazem no pó das gavetas, à espera da ordem para fazer um estudo novo, num dispêndio de energias e trabalho. Como se fosse obrigação de cada um que chega depois ter de afirmar-se mudando rostos e distinguindo-se dos anteriores, nem que seja no estilo ou no título do papel timbrado.
Um país será tanto mais evoluído quanto a sua máquina administrativa estiver oleada, for profissional e pouco permeável ao novo ministro, dirigente ou assessor que chega. Assim acontece na Bélgica, por exemplo, onde há mais de um ano que não há governo (e ninguém parece estar preocupado com isso) ou nas sociais democracias nórdicas (eu sei, eu sei, é longe...). Por cá, enquanto o rotativismo do amiguismo e do cartão partidário não der lugar a outra cultura, as pessoas e os favores hão-de estar sempre à frente da competência ou da gestão por objectivos, pondo o país e a coisa pública depois e o assalto ao poder primeiro. Mas, ou me engano muito, ou alguém daqui a cem anos ainda estará a fazer este discurso e renovar esta constatação. Está nos nossos genes.

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