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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Nos 65 anos do Plano de Gröer

Donat-Alfred Agache, Etienne de Gröer e Luigi Dodi foram alguns dos arquitectos que a convite de Duarte Pacheco trouxeram a Portugal nos anos 30 e 40  novos ideais urbanísticos, entre os quais se destaca o conceito da cidade-jardim, de Ebenezer Howard, em voga por toda a Europa de então.A aplicação prática desses conceitos e a sua adaptação a um contexto territorial especificamente português, constituiu um legado para gerações de urbanistas e arquitectos nacionais.Em 1938 a Câmara de Lisboa, com Duarte Pacheco, contratou o arquitecto–urbanista Étienne de Gröer a definir as grandes linhas de desenvolvimento da cidade.Em finais dos anos 40, o mesmo arquitecto, de ascendência russa, elaborou o Plano de Urbanização de Sintra, aprovado em 11 de Novembro de 1949 e que agora comemora 65 anos.
Gröer percebeu o que tinha em mãos: preservar o casco histórico e acautelar a expansão, mas, ao mesmo tempo reservar zonas para as necessárias actividades económicas, sem as quais se matam as cidades tornando-as obsoletas e amorfas. Foi sobre esse fio de navalha que Sintra viveu desde então, até aos anos 60 pelo menos, respeitando o legado de Gröer. A partir dessa altura, depressa os ventos do crescimento desordenado chegaram a Sintra, como o caos da Portela ou a cacofonia da Estefânea o atestam, e o que era um plano prospectivo, um manual de procedimentos e bíblia de consistência passou a ser usado de forma casuística, usado para indeferir quando as propostas não interessavam ou capciosamente esquecido quando algum mamarracho precisava de avançar. Onde esteve o Plano de Groer quando se construiu o Hotel Tivoli, ou o Departamento de Urbanismo na Portela(era para zona verde…) os caixotes dissonantes da Portela ou o “comboio” de armazéns em Ouressa?. Paradoxalmente, ao não se ter retocado  o plano, sob a falácia de que isso subverteria o ordenamento do centro histórico, mais argumentos se foram dando a quem o considerava ultrapassado, panaceia de  arquitectos antiquados ou esclerosados defensores do património. Corremos grandes riscos: ou em nada mexer, e assim assobiar para o lado num sector que deve ser particularmente acarinhado, mas de forma positiva e pró-activa, ou alterar demais  abrindo a brecha para o cavalo de Tróia do betão (do mau betão, sobretudo) sob a forma rebuscada e politicamente correcta de “mais valia para o turismo” ou da “modernização”. Etienne de Gröer, o franco-russo que um dia veio ordenar Lisboa, Cascais e Sintra, entre outras, viu mais além, e passados sessenta e cinco anos merecia um sucessor à altura. Tê-lo-á?

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