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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Berlim, ou os muros da Europa


O muro de Berlim além de dividir a cidade de Berlim ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países capitalistas encabeçados pelos Estados Unidos; e a República Democrática Alemã (RDA), constituído pelos países simpatizantes do regime soviético. Construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961, tinha 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda, e era patrulhado por militares da Alemanha Oriental com ordens de atirar para matar (a célebre Schießbefehl, ou "Ordem 101") os que tentassem escapar, o que provocou a morte a 80 pessoas identificadas, 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas. Ali passei também em 1980, no Checkpoint Charlie, na esquina da  Friedrichstraße, e pude constatar a divisão de dois mundos, adversos, e de costas voltadas.


A 9 de novembro de 1989, após várias semanas de distúrbios, multidões de alemães orientais subiram e atravessaram o Muro, juntando-se aos alemães do outro lado, numa atmosfera de celebração. Ao longo das semanas seguintes, partes do Muro foram destruídas por um público eufórico e por caçadores de souvenirs. Mais tarde, equipamentos industriais foram usados para remover quase o todo da estrutura. A queda do Muro de Berlim abriu o caminho para a reunificação alemã que foi formalmente celebrada em 3 de Outubro de 1990.
Nos 28 anos da existência do Muro morreram muitas pessoas, sendo a primeira vítima Günter Litfin, baleado pela polícia dia 24 de Agosto de 1961 ao tentar escapar perto da Friedrichstraße. O último incidente fatal ocorreu a 8 de março de 1989, oito meses antes da queda, quando Winfried Freudenberg, de 32 anos, morreu na queda de seu balão de gás de fabricação caseira no bairro de Zehlendorf, quando tentava transpor o muro.
Depois do famoso “Ich bin ein berliner!”de Kennedy, em 1961, em 1987 foi Ronald Reagan quem na Porta de Brandeburgo desafiou o leader da Perestroika russa, Gorbachev , a derrubar o Muro. Ficaram célebres as suas palavras “Mr. Gorbachev, tear down this wall!”
Os ventos de mudança que varreram a Europa naqueles finais da década de 90 chegaram a Berlim e ao seu odiado muro na noite de 9 de Novembro de 1989, depois do dirigente da RDA Günter Schabowski anunciar a decisão do conselho dos ministros de abolir imediatamente e completamente as restrições de viagens ao Oeste. Pouco depois deste anúncio houve notícias sobre a abertura do Muro na rádio e televisão ocidental, e milhares de pessoas marcharam até aos postos fronteiriços e pediram a abertura da fronteira. Nesta altura, nem as unidades militares, nem as unidades de controle de passaportes haviam sido instruídas. Por causa da força da multidão, e porque os guardas da fronteira não sabiam o que fazer, a fronteira abriu-se no posto de Bornholmer Strasse, às 23 h, mais tarde em outras partes do centro de Berlim, e na fronteira ocidental. Muitas pessoas viram a abertura da fronteira na televisão e pouco depois marcharam até à fronteira.
Os cidadãos da RDA foram recebidos com grande euforia em Berlim Ocidental, e houve uma grande celebração na Rua Kurfürstendamm, pessoas que nunca se tinham visto cumprimentaram-se, o Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento, e os deputados cantaram o hino da Alemanha. Foi um 25 de Abril com décadas de atraso.
O que se seguiu é conhecido: a integração europeia do bloco de leste, o colapso da União Soviética, até chegarmos ao nó górdio de ter de escolher que Europa se quer daqui para a frente. A Europa das Pátrias, como propugnou o general De Gaulle, do Atlântico aos Urais? O federalismo burocrático de Bruxelas capturado pelo autismo financeiro e político alemão? O regresso aos nacionalismos, de que as ameaças do Reino Unido são um indício cada vez mais presente?
O muro caiu, mas outros, invisíveis, se levantaram. Há que tudo fazer para derrubar os muros mentais, esses sim, perigosos e de contornos indefinidos, e debater abertamente se há lugar a uma Europa plural e solidária ou a um mosaico oportunista e cínico que em nome dessa mesma Europa se quer fechar e proteger. Os tempos são de decisões, e de partir os muros invisíveis.

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