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segunda-feira, 10 de março de 2014

Os 500 anos da embaixada de D.Manuel ao Papa

Passaram ontem, 9 de Março, 500 anos da embaixada de D. Manuel ao Papa. Um texto em jeito romanceado do meu anterior blogue Café com Adoçante:

Hanno, o Paquiderme do Império


Já desde Livorno corria de boca em boca, uma exótica e vistosa comitiva aproximava-se da Cidade Eterna e estranhas bestas desbravavam a Via Ápia sem que fossem repelidas. O povo estranhava.

Naquele 9 de Março fazia a entrada nos Estados do Papa a luxuriante embaixada do rei de Portugal, o poderoso D. Manuel, alardeando os sucessos da sua navegação e com fausto indo prestar tributo ao senhor da Cristandade. Tristão da Cunha, o plenipotenciário, instruíra Garcia de Resende para que distribuísse moedas de ouro pelos pobres e fosse esmoler com as igrejas, o que o secretário do embaixador fez, para gáudio dos locais, que à vista de tal davam vivas àqueles bizarros portoghesi. Avisado da chegada, Leão X anunciou que receberia a comitiva a 20,dispensando a bula de entrada nos Estados Pontifícios.

Diogo Pacheco e João Faria montaram guarda ao tesouro que seria ofertado, e a custo mantiveram calmos os exóticos animais, tirados de seu sossego em paragens longínquas e agora na terra dos campanários. Leopardos, uma pantera, papagaios, perus, cavalos da Índia, o circo real chegava à cidade. Mais que todos, impressionava um enorme elefante albino de doze palmos, carregando no dorso um palanque de prata em forma de castelo contendo um cofre com presentes, entre os quais paramentos bordados com pérolas e pedras preciosas, e moedas cunhadas para a ocasião. Um rinoceronte indiano estivera previsto, mas morrera num naufrágio, já perto da costa italiana.

Mais de cem pessoas escoltavam a parafernália de presentes, para glória do Venturoso, Senhor do Oriente, do Império e da Conquista, vassalo do Papa, mas seu igual, temido e invejado dono dos mares tormentosos. A Tristão da Cunha competia obter bulas e breves, e a bênção papal, a troco das generosas arcas carregadas pelo paquiderme.

Roma estava rendida. À ordem de João Faria, trombetas e tambores anunciaram as novas legiões. Fernão Pires, do Paço de Sintra, era o responsável pelo elefante, e o guardião do tesouro, de quinhentos mil cruzados. O animal diversas vezes se mostrou enervado com os ruidosos camponeses que em algazarra seguiam o cortejo pela estrada, só o mahout, sentado na lombada, o mantinha em sossego, afugentando os campónios quando, estridente, fazia ecoar a presença, atarantando os cavalos da embaixada. Garcia de Resende tombou inclusive quando o seu alazão se desgovernou, assustado, projectando-o numa poça enlameada, para regalo de Tristão da Cunha, que riu a bom rir, troçando do pobre secretário.

Entre satisfação geral, com os cardeais abismados e a criadagem receosa, a comitiva enfim entrou no Castelo de Sant’Angelo, com os lusos ricamente paramentados e os tesouros expostos em louvor do Santo Padre. Ainda não refeitos do espanto, provocado pelos leopardos e pelos elegantes cavalos árabes que desfilavam altivos, perante o assombro geral abriram-se alas para o visitante mais vistoso: o portentoso elefante, paramentado e guiado pelo mahout, com Fernão Pires escoltando a cavalo, lançando moedas de ouro e com o estandarte do rei de Portugal desfraldado ao vento. Atónita, toda a praça estremeceu, e quase dispersou, quando o proboscídeo soltou um guincho tonitruante, deixando os guardas suíços temerosos e em posição de fogo.

Para espanto geral, à ordem de Tristão da Cunha, o elefante ajoelhou três vezes, em sinal de reverência, e depois, obedecendo a um aceno do tratador, aspirou a água de um barril com a tromba, e espirrou-a sobre a multidão, deixando aterrados os cardeais.

A medo, o Senhor dos Altares foi ao encontro do Senhor da Selva, e Tristão da Cunha fez então a entrega da besta ao romano pontífice:

-Santidade, El-Rei D. Manuel, meu senhor, fez mercê de vos enviar o mais pujante dos animais, encontrado em nossas e vossas terras das Índias. Um elefante, Hanno, o nome porque atende. Apesar de ser corpulento, conta só quatro anos, poucos para a sua espécie. Veio de Cochim até Roma, para Deus Nosso Senhor servir e reverenciar!

A um sinal do tratador, o elefante ajoelhou a receber bênção do Papa, que o olhou, inseguro, não fosse enervar-se.

Garcia de Resende registou o momento. Séculos depois do grande Aníbal, o poderoso rei de Portugal, senhor de remotas e desvairadas gentes, e também ele Grande Elefante dum Império onde o sol nunca se punha, deslumbrava a Sé Apostólica e erguia o nome luso às portas da Cidade Eterna.

À ordem do Pontífice, o camerlengo conduziu Hanno para um improvisado picadeiro, à sombra de igrejas e basílicas. Afeiçoado, mais tarde o Papa mandou erigir-lhe estábulo no Borgo de Sant’Angelo, e com o tempo participou em procissões e desfiles, recordação da nação portuguesa, grande e pujante nos mares, como Hanno entre os romanos.

No Paço de Sintra, recebida a notícia do deslumbre provocado, o Venturoso regozijou-se, triunfante, enquanto da varanda lançava ao fosso uma lebre, a alimentar um tigre do Malabar. Deus punha e o rei de Portugal dispunha, num mundo onde o mar oceano era ainda um imenso lago português.


 

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