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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Zé Alfredo desapareceu há 22 anos

  
Passam 22 anos do desaparecimento de José Alfredo da Costa Azevedo, um dos últimos homens bons de Sintra e paradigma de cidadão e sintrense.
José Alfredo da Costa Azevedo nasceu em Sintra, no primeiro andar do edifício da actual pastelaria Piriquita em 8 de Dezembro de 1907.Cedo foi atraído pelo desenho, influenciado por Mestre Alonso, Leal da Câmara e Norte Júnior, produzindo proficuamente em óleo, aguarela e carvão. Tendo empreendido uma carreira de funcionário judicial, em Sintra e Lisboa, em 1948 apoiou em Sintra a candidatura de Norton de Matos á Presidência da República, tendo mantido tertúlias literárias com figuras intelectuais do seu tempo, como Ferreira de Castro, que veraneava no Hotel Netto, e outros opositores ao regime.
Foi no início dos anos 30 que começou a sua colaboração no Jornal de Sintra, com artigos de índole cultural e também de intervenção cívica, assinando muitas vezes como Zé da Vila, transformando-se ao longo dos anos num cultor de ensaios historiográficos-epistolares e da monografia geocircunscrita.
Após o 25 de Abril de 1974 foi aclamado como presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Sintra, nunca tendo recebido um tostão, destinando o vencimento para a Santa Casa da Misericórdia de Sintra e para os Bombeiros Voluntários de Sintra alternadamente, e dispensando o uso de carro com motorista, fazendo a pé o percurso de sua casa até á Câmara. Demitiu-se em 1976,desiludido com a política.
Nesse lugar, pugnou pela colocação da estátua de D. Fernando II, abandonada num armazém, no local onde hoje se encontra no Ramalhão e pela defesa do património de Sintra, em período conturbado da vida portuguesa.
Afastado da política activa, dedica-se então ao seu sacerdócio de jornalismo histórico-cultural, compilado na série de volumes Velharias de Sintra, já dos anos 80.
Foi igualmente maçon, a partir de 1929,na Loja Luz do Sol, nº246 do registo do Grande Oriente Lusitano Unido, que funcionou no nº38 da R. Alfredo Costa, em Sintra, destacada na luta pela alfabetização segundo o método da Cartilha Maternal de João de Deus. José Alfredo foi iniciado maçon no primeiro grau de Aprendiz em 6 de Junho de 1930 em Lisboa, na Loja Cândido dos Reis, do Rito Escocês Antigo e Aceite, com o nome simbólico de "António Oliveira" e matriculado no regime geral de membros daquela Potência sob o nº 22,sendo subsequentemente Companheiro e Mestre. Seguidamente foi iniciado no 9ºgrau de Mestre Eleito dos Nove em 14 de Janeiro de 1932,na Loja Tomé de Barros Queiróz, de Lisboa, do mesmo rito, no 14º grau de Mestre Perfeito Sublime e no 30º de Cavaleiro Kadosh.
Morreu aos 83 anos a 3 de Dezembro de 1991,e em sinal das suas afinidades maçónicas foi descerrada por Raul Rego, então Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, uma lápide na fachada da casa onde nasceu. Nessa data, o filho de Sintra voltou á terra sagrada que o viu nascer e por quem por obras valorosas definitivamente da Morte se libertou.
É imperativo pegar na bandeira de Zé Alfredo e continuar a pugnar por esta Sintra plena de símbolos, cheiros e memórias. Graças à sua escrita militante e apaixonada pela sua terra, ficou-nos um legado da Sintra do Povo, simples e também burguesa, dos Homens e dos seus sonhos, no dealbar dum século onde a emergência dos Estoris levou os dandys do séc XIX, mas deixou toda a galeria de figuras de Zé Alfredo -o ti João das Barbas, o dr. Virgílio Horta, Francisco Costa, Félix Alves Pereira, e outros que, não fora ele, passariam despercebidos na construção desta Vila fascinante.

1 comentário:

  1. Sobre José Alfredo, o homem está tudo dito e bem.
    Tive o privilégio de ser seu amigo, já que ele era da geração do meu pai e amigo de infância.
    Dos seus escritos aqui ficam estas linhas.
    "Conheci ali a oficina de Correeiro de José Caetano dos Santos, a quem tratávamos por «tio Zé Borralho», que também podemos considerar como um homem bom na acessão mais lata do termo. Faleceu a 26 de Setembro de 1924. Por morte dele passou para seu filho Carlos Caetano dos Santos, rapaz do meu tempo, a quem nós desde meninos nos habituámos a tratar por «Caínhas». Bom como o pai e, como ele grande chefe de família. Deixou este vale de lágrimas a 20 de Agosto de 1971.
    Hoje não há correeiros em Sintra".

    Cada vez que leio estas linhas, tiradas do livro do livro do Senhor José Alfredo, autêntico roteiro de Sintra antiga, que são um legado aos sintrenses, a emoção tolda-me a vista, e ficam sempre as lágrimas de muita saudade, destes homens bons.

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