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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

2014: A Cultura e o prato de sopa



Quase a cair o pano sobre um 2013 que não deixará saudades, a Cultura em 2014 ameaça repetir a anomia do ano que finda, sem verbas e, sobretudo, com a crescente perda de massa crítica que a emigração de arquitectos, bailarinos, músicos e outros origina e a luta titânica dos outros, quase todos precários, ou em vias de precarização, esbracejando para garantir um prato de sopa ou o pagamento da renda. Não há dinheiro, não há palhaços, diz um adágio popular. Nem escritores, encenadores, livreiros, actores e muitos mais. Os teatros de referência fecham, a nova lei do Cinema marca passo, os editores fogem dos escritores sem nome feito, e a Cultura reduz-se a um alegado prato de caviar num acampamento de refugiados.

A falta de soluções a ninguém parece incomodar: o necrófilo e reformado Cavaco, acolhido em seu sarcófago, de quando em quando sai da cripta para uns arrotos de economês, confessando esgotar a sua intervenção nas conversas semanais com o delegado da tríade, o sr. Coelho. Os políticos, falando para os acólitos, gritam baba e ranho pelos telejornais, sem que um laivo de patriotismo os leve a sair da carapaça e pensar em algo que não sejam tácticas partidárias. Dos militares com reumático, sem munições ou blindados, pouco mais há a esperar que reivindicações corporativas, e os sindicatos, arriscam-se um dia a não mais representar trabalhadores, pois serão mais os desempregados que aqueles no activo. Ululante, o povo definha e desiste, fugindo para geografias de esperança, violentamente expulso da pátria, capturada por ciclopes e gárgulas. São vãs as chamadas à unidade e a olhar mais longe que o umbigo, revelador da mesquinha visão da classe política da aldeia, sem sopro de dignidade ou coragem, bastarda filha do clientelismo larvar e da indigência cultural que brutalmente capturou o país nos últimos anos.

Para uma situação de excepção, hajam respostas excepcionais: é tempo do compromisso histórico das forças e cidadãos que ponham o país primeiro, de líderes que peguem num caderno de encargos de salvação nacional e reajam ao estado comatoso em que Portugal sobrevive. O quadro actual está esgotado, e insistir no mesmo, é apressar o abismo, e cometer o crime de ficar para a História como a geração da ruína.

Não se percebe como um país com nove séculos se deixou aprisionar sem reação a uma moeda que lhe suga a população, mina a economia, e onde se vive das promessas duma recuperação que tarde ou jamais virá, tornando os sacrifícios actuais inúteis e as decisões importantes sem eficácia real.

Precisamos de líderes que devolvam a esperança, e para tanto há que construir soluções, dentro e fora do tumefacto parlamento, onde meramente se discute o sexo dos anjos. Os políticos incumbentes provaram não estar à altura da hora que passa, e muito menos os europeus, o patético senhor Rompuy ou o sonolento Olli Rehn, burocratas sem chama para quem Portugal não passa de um enfadonho relatório com números e sem pessoas dentro.

Se assim não for, um longo e tortuoso caminho de penúria e precariedade e a escuridão dum túnel sem fim envolverão este país orfão, e o sopro de esperança que acalentou as gerações que um dia viram a luz da liberdade definitivamente se apagará, para gáudio dos profetas messiânicos e de muitos opinion makers encartados. A turbulência não parece abrandar, e cedo ou tarde a aeronave, comandada por loucos ensandecidos  poderá despenhar-se. Urge aterrar para reabastecimento, mudar a tripulação e procurar porto seguro. Basta de Medo, e para encabeçar tal Exército da Esperança há que contar com os agentes da Cultura, paladinos da Mudança, feridos mas nem todos mortos, ainda.

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