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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sob o signo de Câncer



Praia Grande, sábado à tarde. Mirones a ver o mar e ser vistos, um passeio pelo areal, a Galé e o Angra servindo imperiais e gambas, com vista para o infinito. Na esplanada, a Rogério Pedreira apenas uma notícia interessou, discreta num matutino, o suicídio perto de Cascais de um homem a quem um cancro terminal precipitara de um quinto andar, enquanto na sala um CD reproduzia o Requiem de Mozart, fotografias de família cobriam o chão. Rogério, clínico no IPO, lembrava-se daquela cara, o sr. Gustavo, seu doente, bancário reformado, durante uns meses confiante nas consultas, os tratamentos faziam temer uma ligeira regressão, não o via porém há mais de um mês. A notícia era vaga, ilustrada por uma foto do falecido, aí com dez anos menos, a esposa estava inconsolável. Esta era a parte da notícia que para ele não batia certo. O Gustavo sempre se dissera viúvo, lembrava-se mesmo de o ouvir dizer que jantava numa leitaria, pois não sabia cozinhar, teria casado entretanto?
Ao chegar a casa, buscou o bloco-notas, e lá descobriu os dados do falecido: Gustavo Silvestre, 57 anos, de Soure, morador em Queluz. Viúvo, um filho. Pólipos no intestino grosso e sangue nas fezes. Metastizadas, foram-lhe detectadas células cancerígenas nos gânglios linfáticos, já muito disseminadas pelo fígado. Um número de telefone deixou-o hesitante: telefonaria a dar os pêsames, e assim saber quem seria a esposa de que os jornais falavam, ou passaria adiante, médico e morte são rivais, mas também parceiros. Ligou. Após alguns segundos, uma voz feminina, já madura, atendeu do outro lado:
-Está lá?
-Sim? Boa tarde minha senhora, é da família do senhor Gustavo?
-Sou a viúva…
-Sou o dr. Rogério Pedreira, e até há pouco fui seu médico, no IPO. Vinha apresentar as minhas condolências. O caso dele era sério, mas lamento que tenha desistido, ainda havia esperança numa vida com dignidade, pelo menos…
Do outro lado, após breve hesitação, enigmática, a viúva respondeu:
-Muito obrigado senhor doutor. Mas a doença que o matou foi outra…
-Outra? Como assim?
-Senhor doutor, posso passar no IPO um dia destes? Gostava que soubesse a verdade, era um alívio para mim, também….
-Com certeza, dona…
-Sara. Sara Geraldes.
-Apareça então segunda-feira, D. Sara, dou consulta a partir das três, passe um pouco antes.
Na sala de espera, no IPO, uma senhora com menos de quarenta anos, fato azul e óculos escuros, aguardava em silêncio. Antes de a receber, Rogério mirou-a ao longe atentamente, os médicos desvendam os segredos do corpo mas muitas vezes desconhecem os segredos da mente, cada doente com um passado em busca de futuro, ameaçado se for no IPO. Mandou entrar. A senhora cumprimentou, discreta mas afável.
-Pois mais uma vez os meus sentimentos, minha senhora. O seu marido era um doente abnegado, e se quer que lhe diga, até persistente, fiquei admirado com este desfecho bastante triste. E já agora, foi para mim uma surpresa saber da sua existência, ele sempre me disse ser viúvo…
-E era, senhor doutor. Vou-lhe contar tudo, e talvez entenda o que se passou…
-Faz favor...
A viúva, de aspecto bem tratado, quase da mesma idade do médico, desfiou a história lentamente:
-O Gustavo e eu tivemos uma relação durante mais de dez anos. Fomos colegas no banco, e, discretamente, mantinha com ele encontros em segredo, ele gostava da mulher, e nunca quis dar-lhe esse desgosto. Tinha uma vida dupla, se assim posso explicar…
-Compreendo.
 -Depois da morte da mulher, adoeceu, como o doutor sabe, e de livre vontade entendeu que devíamos casar, fazia questão. Eu hesitei, o filho nada sabia, nem de mim nem da doença, e podia não entender. E não entendeu. No dia do casamento, o Gustavo telefonou-lhe a contar, mas ele ficou possesso e disse que nos matava, que era uma afronta à memória da mãe, e que eu era uma rameira, enfim…
-Caso complicado, estou a ver…
-De qualquer modo, casámos. Há três semanas, pelo registo. Ele sentia a doença avançar, mas vou recordar para sempre estas três semanas de felicidade, apesar de viver amargurado por causa do filho. Há uma semana, ele foi lá a casa, embriagado, e disse-lhe que era um pulha e sem vergonha, e que quando morresse o mandaria para a vala comum, e cuspiria em cima. Foi muito chocante, até lhe disse que o cancro ainda era pouco castigo.
-As famílias são uma coisa complicada…-comentou, ele próprio com o casamento na corda bamba.
-A discussão deixou-o muito abalado, o filho proibiu-o até de ver o neto. Nessa noite, foi deitar-se, e não pregou olho, ficou sentado no sofá a ouvir música e a beber, apoquentado. Até que na quarta-feira, levantou-se para ir à casa de banho, e já só vi as cortinas a esvoaçar e um ruído de travagem na rua.
O cancro flagelando o corpo, o filho flagelando a alma, despedia-se deixando uma carta para Sara, saía de jogo antes que soasse o apito para o fim. Rogério acompanhou a viúva à porta e voltou para os seus doentes, terminais uns, famintos de vida outros, sem ter para quem viver, o dossier de Gustavo de vez no arquivo morto.
No sábado seguinte, Rogério voltou à Praia Grande. Jovens surfistas cortavam as ondas, doses de amêijoa passavam para a mesa do fundo, Rogério, retomando a rotina e levantando os olhos do mórbido matutino das desgraças, por momentos pareceu ver o Gustavo ao fundo, na falésia, mirando o horizonte e ouvindo o Requiem de Mozart. RIP.


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