Follow by Email

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Na partida de uma mãe

Quando a realidade imita a ficção... Uma história do meu blogue Café com Adoçante com mais de um ano.

A avó voltava do supermercado, trazia pizzas e um pato, faria aquele espectacular pato com laranja que só ela sabia, com arroz tostado e seco e pele crocante, mau para a dieta, retemperador para o estômago. O avô, menos dado à comida, apostava no peixe, grelhado sobretudo.
Francisco e Teresa desde tenra infância viviam com os avós, a morte precoce do pai e uma mãe funcionária pública, fizera deles os pais de substituição, até gostavam, agora que a filha Sofia  crescera e reformados pouco tinham com que se ocupar. Francisco, nos seus doze anos, deambulava entre a escola, a playstation e a banda larga, sempre enfiado no quarto, todos os dias a avó invariavelmente lhe levava o lanche favorito, uma baguette com pasta de frango e uma cola light, era uma querida, até acompanhava os Morangos e sabia quem era a Lady Gaga, o som do My Space de Francisco já lhe era familiar. Teresa até lhe escolheu um toque de telemóvel, embora preferisse o Frank Sinatra, mais soft. Sorriso rasgado, jovialidade de mulher urbana e reformada dos correios, educava os netos na responsabilidade, apaparicando nas comidas, mas exigindo método e ordem em casa, quer o  avô, quer eles, tinham de trazer sempre tudo arrumado, com horas para comer. Quem chegasse atrasado teria de tratar do seu prato e lavar a loiça. À noite, quando iam dormir, não dispensava aconchegar-lhes a roupa e o edredon com um terno beijo na testa, enquanto na secretária os bips do Messenger continuavam a debitar mensagens de amigos menos dorminhocos.
Naquele sábado, Sofia teve de fazer horas extra, a ida ao McDonalds ficou adiada para domingo. Aborrecidos, reclamaram de ter de ficar em casa, sem nada para fazer, a casa fora do centro obrigava a deslocações de carro ou transporte, era a garantia de um dia de sorna para os dois, entre o Facebook e a MTV, Francisco antevia já um dia a dormir até ao meio dia. O avô, que voltava com o carro da revisão entrou de rompante na cozinha e como Pai Natal em vinte e quatro de Dezembro, bateu com as mãos e chamou a reunir:
-Vá, vá, todos fora da cama! Vistam-se que vamos dar uma volta!
-Volta? Onde? - Francisco estremunhado e ainda deitado suspeitou das ideias do avô, alguma ida ao café do Vasco a aturar os amigos da sueca, por certo -Oh avô, que ideia. Ir aonde? Fogo! -virando-se na cama, tapou a cabeça com a almofada, ensonado.
-Vamos ao Badoka Park! Não querem? E almoçamos lá. Vá, vá, que a vossa avó tem de sair também um pouco, toca a vestir! Hoje vamos ver a bicharada, Margarida! -o avô Alcino era um pachola, sempre a contar anedotas, pai de substituição, a chegada da Primavera despertava o prazer do ar livre, iriam por Tróia, a ver o novo empreendimento.
-Tu…-a avó simulou repreendê-lo, mas ficara contente, quando novos faziam isso muito, escapadelas de fim de semana e piqueniques com os amigos, agora todos já avós. Meia hora depois, lá rolavam, estrada fora. O avô tirava retratos com a Canon de modelo ultrapassado, a avó levava umas sandes, o cheiro a pinhal e as emoções do atrelado do Badoka, perigando com a aproximação duma avestruz alucinada, querendo bicá-los, fizeram daquele um dia bem passado, eram uma família, apesar de tudo, Sofia, mais ausente, compensava quando podia. Naquela noite, ao chegar a casa, Francisco ia extenuado, mas  feliz, no fundo, e até editou as fotos do passeio no Facebook e adormeceu recordando a cena da avestruz.
No dia seguinte, atrasado para o pequeno-almoço, ovos mexidos com bacon e compota de cereja com torradas, Francisco abriu-se com a avó, o cheiro a café fresco já acordara o avô Alcino, que tomava uma chávena, folheando o jornal do dia:
-Sabes uma coisa, avó? Esta noite tive um sonho esquisito. Imagina que sonhei que tinhas morrido. -Francisco estava um quanto impressionado, a avó sorria:
-Ai sim? Deixa lá, é sinal de vida, quando se sonha com mortos é sinal de viver muitos anos! -explicou, a sabedoria popular nunca falha - Então e como é que eu morria?
-Não sei. Era uma coisa esquisita, eu estava de pijama numa gruta com archotes nas paredes, e ao centro havia três caixões. Num, esticada, estava a avestruz do Badoka. No do meio, um esqueleto, de criança, parecia. E no outro estavas tu. A sorrir, com esse vestido que trazes hoje.
-Isso foi a digestão mal feita. Eu também já sonhei que me saía o Euromilhões, mas nunca saiu. Quando se sonha, é porque vai acontecer o contrário! -o avô, na cozinha, surripiava mais uns ovos mexidos.
Francisco foi vestir-se e saiu para o quintal, Merkel, a cadela basset seguiu-o, brincalhona, ladrando e abanando o rabo. À tarde, e de folga, a mãe levou-os finalmente ao shopping, a avó prometia bolo de bolacha e profiteroles com chocolate quente quando voltassem.
Pelas seis, já a caminho do carro, no estacionamento do shopping, o telemóvel de Sofia tocou, era o avô Alcino:
-Sim, pai, diga… estou a sair….eu… o quê? Oh meu Deus! Vou já para aí, pai- Sofia parecia em pânico, um choro incontrolável saltou-lhe dos olhos, compulsivo.
-Aconteceu alguma coisa mãe? - Francisco ficou assustado, nunca vira a mãe assim.
-Dá um abraço à mãe, Chico. A avó….
-A avó o quê?
-A avó morreu. Teve um ataque fulminante, e caiu na mesa da cozinha, estava a fazer o bolo de chocolate. Porquê, porquê, meu Deus!
Francisco ficou estarrecido, na véspera sonhara com aquela morte, como era possível! Ainda de manhã haviam zombado da situação, descobria agora não ser a vida afinal eterna.Na igreja, a avó sorria, serena, deitada naquela caixa escura rodeada de flores, exactamente como a havia visto no sonho. Não parecia morta, mas adormecida, a expressão do rosto denunciava que partira de bem com a vida. Talvez aborrecida por não ter acabado o bolo de chocolate.      
                                                                 

2 comentários:

  1. Um texto impressionante.Um abraço à familia.
    Pedro Macieira

    ResponderEliminar
  2. Soube, por um amigo comum, do falecimento de sua Mãe. Deixo-lhe um abraço de conforto e, os meus sentidos pêsames.
    emília reis

    ResponderEliminar