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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Fevereiro

Fevereiro herdou um Janeiro triste mas  conserva o Verão, bafejando as almas amornadas por quotidianos duros. Como autómatos, clientes entram e saem das compras, com sacos mais leves e rostos mais fechados, a esperança sumida no lado esquerdo da alma. É o país do fado, que exaspera no IC-19 e desespera no Centro de Emprego. E são as segundas iguais às sextas, manchetes da crise e a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um despedimento, um gritar baixo no balcão, no autocarro ou no médico, o Carnaval que virou Finados e a Restauração que se não voltará a restaurar.
É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro com reforma dourada. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam na vida, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”,“eles” que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas,  adamastores de gravata e  notebook .
Fevereiro trouxe contas demais para dinheiro de menos, propinas a mais para livros de menos, doenças a mais para tratamentos de menos. Desfila a galeria de horrores chegados e a chegar,promessas de amanhãs traídas num Acqua Matrix nos dias idos da Expo. Assim é hoje Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas sem dinheiro para o lar, apagadas que foram as luzes da ribalta.
Na rua, um mendigo  pede esmola,a abafar a cirrose, miúdos atafulham-se em pizza, velhos de todos os Restelos ocupam  bancos de jardim, esconjurando o tempo. O tempo que já não conta com eles, onde se limitam a passar o tempo, no tempo deles é que era…
Branda, a cidade promete fumo, pelos cantos sussurram vozes, sem voz. No quiosque lêem--se desgraças matinais,  valem as páginas eróticas. E o tabaco de enrolar, e as fofocas, e as mundanas Cinhas com vestidos alugados.
As árvores decepadas no Inverno crescerão, altivas, zelosos, polícias amarelos farão os condutores  mais amarelos ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre com o miar dos gatos. Deus fez o mundo, previdente o homem concebeu a multa.São curtos os dias, é bom. Menos horas, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar.
Concentrado, um varredor recolhe o Inverno nas ruas. Os deuses do Norte deixam-nos, de regresso às cavernas, sem alegorias e assustados, passaremos luas  deixados à Grande Tundra. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança em renovada Primavera. Outros,não. O mendigo continuará a pedir esmola, os miúdos comerão mais pizza, circunspectos polícias aplicarão mais multas, renovados, os rostos continuarão, esculpidos pelo tempo. E Fevereiro também, no eterno spleen pela  prometida fénix.

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