Follow by Email

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quatro "estórias" para o Halloween






Palmira

-Está lá? – esfregando os  olhos, António tentava acordar- Está sim?
Já prestes a desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:
-Sim... António? Sou eu, o Marco.
-Marco! Que se passa, já viste que horas são?
-António, tinhas razão. Nunca me devia ter metido com ela…
-De que estás a falar? Metido com quem?
-Veio buscar-me, eu sei... Está à janela, desde que anoiteceu.
-Marco – insistiu António, tentando manter a calma – andaste a beber? Quem está à janela?
-Palmira…
A ligação caiu. António levantou-se, num misto de raiva e preocupação. Não era a primeira vez que Marco o acordava a meio da noite, mas havia algo diferente neste telefonema, Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o amigo, mas a chamada foi parar à caixa das mensagens.
-Ah, que se lixe! – apagou a luz do candeeiro, estava bêbado, por certo, nem sequer se iria lembrar no dia seguinte. No entanto não conseguiu voltar a adormecer, ficou com a sensação de que algo havia acontecido. Olhou para o despertador, 4:30h da manhã. Se saísse de carro, chegaria à casa de Marco já dia. Isto é de loucos, pensou enquanto se vestia. -Bolas, Marco, se te encontro a dormir e a curá-la, vais ter de te ver comigo!
Saiu de Colares e apontou à casa de Marco, na Vila Velha. Marco tinha-se mudado para lá recentemente, escritor, trabalhava num livro inspirado na vida do conde de Valenças, antigo proprietário do edifício hoje na posse da Câmara.  Luís Jardim morrera há anos, para Marco era uma interessante fonte de informações sobre Sintra em finais do século XIX. Tentou lembrar-se do que ele disse, algo sobre alguém que teria ido buscá-lo...Palmira. Quem seria essa Palmira? Uma familiar do conde descontente, por certo, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.
Passava das cinco da manhã quando chegou ao casarão, com uma localização magnífica, perto do velho Paço. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro, tudo em silêncio, ninguém respondeu. Vasculhada a casa, nenhum sinal de violência ou de arrombamento, talvez Marco nem estivesse em casa quando lhe ligou. De qualquer forma, decidiu-se a esperá-lo, queria saber como ia o livro e quem era a tal Palmira. O escritório tinha uma enorme janela com vista para a serra, numa escrivaninha, aberto, estava um computador portátil e na parede um quadro reproduzia a paisagem que se via da janela, com o Palácio Valenças destacado a uns duzentos metros, conquanto no quadro um pequeno vulto branco surgisse miniatural numa janela. Nem sinais de Marco. Sentou-se diante do computador, estava aberto numa mensagem de e-mail: “Caro Marco. Seguem em anexo as cópias dos documentos que pediu. Um abraço. Montoito ”Anexados, três documentos.
A curiosidade começou a mordê-lo. Abriu um dos documentos, era a escritura da compra do palácio pela Câmara, no final dos anos 30. Um outro documento continha a cópia de um contrato de comodato entre a Câmara e dois criados do conde, Albertino e Palmira, um casal a quem não quis deixar na rua, garantindo-lhes morada para o resto da vida nuns anexos do palácio, com a venda quase todo destinado à nova biblioteca. Noutro anexo, a foto de uma mulher jovem, a sépia, tirada aí sessenta anos antes. Havia ainda uma pasta chamada Palmira com uma série de artigos de jornal, num deles, já antigo, o recorte de uma gazeta de Lisboa relatava a bizarra morte em Sintra de uma criada traída por uma paixão impossível por um patrão a quem a classe social apartava e que, em desespero, se lançara da janela da mansão, desesperando de um amor impossível.
António recostou-se numa cadeira, pensativo. Voltando ao computador, abriu mais um ficheiro. Outro recorte, com uma foto do conde de Valenças, sorrindo, em baixo uma legenda “Aristocrata vende palacete em Sintra ”. Observou-a com atenção e virou-se para o quadro atrás de si, era a mesma casa renascentista: janelas trabalhadas, a serra sobranceira atrás. Luís Jardim, o conde, morrera há muito, era a inspiração de Marco para o novo livro, muitas vezes pusera os belos jardins do Duche à disposição do povo, para fruição e lazer.
Havia uma foto familiar num salão com a família do conde, a um canto, uma jovem de olhos penetrantes servia chá num bule de Limoges, uma criada, cujas feições chamaram a atenção de António, uma Pola Negri da plebe, pensou. No verso da foto, os nomes de todos: Luís, Adelaide, o conde da Idanha, de visita, e Palmira, a criada do bule. Começou a abrir mais ficheiros, à procura de partes do livro em que Marco estava a trabalhar, embrenhado já naquela história intrigante. Eram histórias de aparições, e relatos de cenas estranhas ocorridas no palácio, em anos recentes. E por que motivo Marco lhe falara duma tal Palmira ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre esses incidentes no Palácio Valenças, insinuando que algo misterioso na velha casa estaria na origem de algumas mortes, aparentemente de causas naturais, a última, a de um subdirector do Arquivo, aparentemente de ataque fulminante, certa vez que ficara a fazer serão. Só se deu conta que o tempo passara quando o sol começou a aparecer no horizonte. Pela janela pôde ver os raios nascendo, e o ruído de uma charrete enferrujada, já próximo da casa. Levantou-se, preocupado, pensando se não seria melhor chamar a polícia, o amigo continuava desaparecido, afinal. Na parede, o quadro já não era igual, porém. A visão do palácio Valenças continuava a mesma, mas a janela central estava agora aberta, e atrás dum cortinado branco via-se tenuemente um vulto de mulher idosa, o ponto branco que inicialmente vira minúsculo no quadro. Saiu da casa a correr, e quando chegou à rua, já na Volta do Duche, descortinando a janela do palácio aberta, atrás do grosso cortinado foi nítida a visão dum vulto branco, igual ao do quadro em casa de Marco, segundos antes. Palmira, já velha, espreitava, antes que o dia nascesse. Quem levaria desta vez?  

Fogueiras na noite

Vinte e três anos e filho de pescadores da Ericeira, Raul gostava das noites de sábado para as suas conquistas nos bares da vila, cheia de turistas e em busca das marisqueiras. Certa noite conheceu Vanda, uma morena de cabelos anelados e generosa de formas, pernas roliças escondidas atrás dum vestido de chita, um sinal na testa tornava-a ainda mais interessante. Depois duma noite de copos, entregaram-se apaixonados no areal escuro mas cúmplice. Apesar do céu carregado de nuvens, a primeira noite foi vivida com emoção, as estrelas brilhavam e o luar, magnético, tinha contornos prateados.
Uns dias mais tarde, saiu com o pai e os homens para a faina da pesca, apesar de futuro advogado, havia que ajudar a família, dali vinha o dinheiro para o curso. No meio da pescaria, a nortada chegou de mansinho, para logo o mar ficar encrespado com vagas de três metros. Com a borrasca, a embarcação não conseguiu voltar ao porto e acabaram arrastados para lá de Santa Cruz, aí lançando ferro. Extenuados, levando o barco para junto da praia e sem rede de telemóvel para contactar a capitania, acomodaram-se num pinhal vizinho, pensando ali passar a noite e regressar no outro dia, no barco se possível. Atento, Feliciano, um dos pescadores, apontou uma clareira donde vinha uma luz e dirigiram-se para lá. Já perto, começaram a escutar cantos, um refrão repetitivo de vozes estridentes e femininas, soltando gargalhadas e palavras ininteligíveis numa língua indecifrável. Seguindo em frente, o clarão de fogo ficou mais visível no escuro da noite, e como por encanto, abriu-se uma clareira, onde protegidas pelo negrume da noite, umas vinte mulheres de rostos angulados e narizes pontiagudos e disformes dançavam envergando túnicas negras. As mãos eram nodosas, terminando em longas unhas, o cabelo cor de galho seco. Insistente, o vento norte sibilava, mas nada mexia na zona da clareira.
Ruidosas, as mulheres dançavam em torno do fogo, sobre uma pedra que mais parecia uma mesa estavam objectos de metal e pedra, relógios, fios de ouro, pares de óculos e outras coisas, por certo pertencentes a pessoas. Abismados, Raul e os demais, escondidos e a alguma distância, tinham agora a certeza de assistir a uma espécie de missa negra ou sabath. Raul já lera sobre o assunto, eram frequentes na serra de Sintra, as mulheres lidavam com objectos de pessoas a quem queriam mal ou dominar.Na clareira, continuaram cantando sem cessar loas ensurdecedoras, interrompidas por gritos e risos macabros enquanto ao centro um caldeirão exalava vapor e uma delas ia remexendo com uma grossa colher de pau. Pegando em canecas de barro e provando da mistela, gritavam excitadas a cada gole.

A dada altura, uma delas parou de cantar e saiu da roda, aproximando-se da moita onde se escondiam os homens e surpreendendo-os e soltando uma gargalhada estridente atraiu os olhos faiscantes das outras sobre eles. Parando a dança, uma risada em uníssono assustou Raul e os companheiros, pondo-os em fuga de volta ao barco. Elas não os seguiram mas para eles, porém, todas as bruxas da terra estavam ali naquele momento reunidas, antes uma noite lutando contra o vento e as ondas, que aquela cena de terror. Depois de uma noite no barco, de manhã e com o mar mais calmo lá voltaram à Ericeira, tão depressa não esqueceriam o que viram.
Nessa noite Raul encontrou Vanda no Ouriço e ainda fora de si deu-lhe conta do ocorrido. Ela ouviu, impávida, quando terminou estranhou a placidez no rosto da namorada. Afagando-lhe a cara, e olhando-a de perto, Raul sentiu um frémito, com aterradora certeza sentiu já haver visto aqueles olhos antes. Eram iguais aos da bruxa que descobrira os homens no pinhal na noite anterior, avermelhados e hipnóticos.
Não disse nada, sentiu que não adiantaria, estava já inexoravelmente dominado. Pegando a mão gelada de Raul, Vanda passeou-o junto ao miradouro, disfarçando um esgar de caçadora, segurou a presa amestrada, o sinal na testa parecia saliente agora.

A Terra dos Lázaros

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme sobre a Gafaria de S. Pedro, a mal conhecida leprosaria no Arrabalde de Sintra. Lázaros escorraçados e errantes ali encontraram refúgio até ao século XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o argumento seria fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning, lendo nas sombras e angustias dessas fitas grandes semelhanças com o mundo actual.
Da pesquisa feita para o filme, chamou-lhe a atenção uma tal Mabília, leprosa que ali morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de magia que usava para  seduzir os homens e depois os roubar. Morrera deformada e no maior sofrimento, jurando vingança.
Falando com os mais velhos de S. Pedro, André verificou que apesar do tempo decorrido, a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo quem jurasse ter visto missas negras nos Capuchos orquestradas por Mabília, enquanto velas rodeavam animais oferecidos em sacrifício.
Por essa altura alguns casos ocorreram reveladores de anormalidade numa terra geralmente bucólica e pacata, surgindo notícias em tablóides relatando o desaparecimento de diversas pessoas sem deixar pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda a quem haviam visto pela última vez na Mourisca, pouco antes da meia-noite. Vozes delirantes, dos que habitualmente viam filmes de terror, associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido, se bem que sempre emprestando um ar trocista aos comentários.
Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e desafiado pela adrenalina do perigo, decidiu investigar por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo, nada descobrira. Os desaparecidos não voltaram a ser vistos e a GNR pensava em arrumar o assunto, para ela a dispensar grandes cuidados. Até nem eram da terra, comentavam, se calhar até tinham fugido zangados com os familiares. Importante, eram os gangues da linha de Sintra, e fechar bares por causa do ruído aos sábados à noite.
Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando e agitado no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior, assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo Inácio que o acompanhasse com alguns guardas a S. Pedro, tinha a certeza de ter descoberto algo aterrador, tendo o grupo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta perto da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar surpreso dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com o largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se ali tivessem cavado recentemente. Perturbadores, restos de um braço putrefacto começaram a ficar visíveis. Nessa altura, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos havia que saciar. O corpo era de um dos desaparecidos, fora André, possuído por Mabília, quem o havia morto, tal como os outros, embora nada recordasse.
Arrancou a camisa e desatou a gritar, descobrindo-se marioneta sem alma e capturada por um dono invasivo do qual não se conseguia apartar, dos seus olhos chispavam os de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer descobrir sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído, e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando André como títere impotente do seu plano predador.
André recupera hoje numa casa de repouso em Mértola, quebrantado, com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda hoje pode ser avistada em S. Pedro em noites de lua cheia, sentada no Túmulo dos Dois Irmãos e esperando as infelizes presas nas noites de lua cheia.

Noite de Halloween

Fim do verão prolongado em Sintra, e tempo dum já esperado inverno, finalmente a natureza retomava rotinas e cheiros de finais de Outubro. Para a velha Gracinda, médium de Galamares e por muitos levada a sério em conselhos e mezinhas, os espíritos dos mortos do ano voltariam nessa altura, predadores dos vivos para neles viver no ano seguinte, dissera-o à Virgínia, durante uma sessão espírita onde por mil euros a pusera a “falar” com o defunto Inácio. Zombando mas ainda assim cautelosos, os homens temiam sempre esses dias de Outubro, refugiando-se na água-pé e castanhas, bem mais espirituosos que os propalados espíritos agoirados pela velha, perita em pragas, em tempos providencial parteira da aldeia. Chegava o Dia de Todos os Santos e o dia de fiéis defuntos, os velhos rumariam aos cemitérios, os mais novos, retomando a tradição pediria pão por Deus no renovado e ruidoso ritual anual.
Na noite de 31 de Outubro, agora também recente e celebrado Halloween, Hugo e Jaime montaram-se na motorizada a caminho duma festa na garagem da Vera, em Cabriz, combinada com os amigos do liceu. Vestidos a preceito, de vampiro, abóboras com velas adornavam-lhes o muro da casa, antevia-se uma noite de copos, fria mas aquecida pelo álcool e algum “bruxedo” mais noite dentro, depois de providenciais dentadinhas no pescoço. Estava frio e sem vivalma, animados, tomaram o caminho do Torrado, nessa noite silencioso e perturbador. Apenas alguns rotweilers ladravam, à passagem, sentado atrás de Hugo, Jaime com uma capa preta acossava ainda mais os cães inquietos, segurando as garrafas do vodka com que a festa enfim animaria. Junto ao moinho em ruínas, a scooter em segunda mão acusou o peso em excesso e qual burro velho “pifou”, ainda metade do caminho não estava percorrido.
-Bolas, é preciso azar, meu, esta treta não quer andar mais!- rosnou Hugo, os olhos pintados de negro, mais parecia um Zorro de segunda classe, montado numa pileca cansada - acho que por hoje não vai dar mais! - conformou-se, dando um pontapé na roda da velha motorizada.
-Fogo, meu, ganda cena! Vamos a pé, daqui lá é pouco mais de meia hora! Amanhã a ver se o Leonel vê o que se passa! Bora!
Encetado o caminho a pé, ainda mandaram um SMS a avisar do atraso, nenhum dos amigos estava de carro que os pudesse apanhar. À passagem pela casa ao abandono do velho Vicente, um cão preto, rafeiro, saiu-lhes ao caminho. Manso, escanzelado, ali ficara desde a morte do velho amolador três meses antes, vadiando e ladrando aos rapazes, conhecidos de longa data:
-Tejo, anda cá!- gritou o Jaime- vai para dentro, meu, andas às cadelas? Vai, vai!
O cachorro, sem dono agora, ainda os acompanhou uns metros. Em noite sem estrelas e falhado o candeeiro já perto da Várzea, um repentino breu envolveu-os, entre a folhagem densa e as árvores frondosas que antecediam a povoação. Ao longe, uma luz na casa da velha Gracinda, subitamente apagada, a velha recolhia-se por certo, no meio das suas velas e mesas pé de galo.
Um pouco mais à frente, uma voz roufenha cantava um velho fado de Marceneiro. Era o Seca Adegas, bêbedo como sempre, a pé para casa. Um vulto indistinto seguia-o a poucos metros, cambaleante mas em silêncio, à primeira não vislumbraram quem fosse, algum companheiro de copos, Seca, borracho como todos os dias, pronto a recomeçar no café do Sérgio na manhã seguinte. Ruborizado, cantava, com voz de cana rachada, à vista dos dois jovens mascarados, ensaiou um ar de surpresa e empunhou a garrafa de tinto como se fosse uma espada em riste:
-Quem são vocês os quatro, homens de Deus? Se é para roubar vêm enganados, daqui não levam nada!
-Pôe-te lá manso, ó Seca, somos nós não nos reconheces?
O velho ébrio cerrou os olhos e agarrou os dois pelo ombro, mudando de atitude, o bafo a aguardente quase contagiante:
-Oi, rapaziada! Então onde é o Carnaval? Não pagam um copo aqui ao vosso amigo? Estou com uma sede danada, quase não bebi nada hoje…- arrastou a voz, completamente borracho
-Vai-te mas é deitar, meu!- afastando o braço do seu ombro, Jaime procurava libertar-se do bafo e do cheiro a bosta, não deveria tomar banho há semanas- então e esse aí quem é?
-Esse quem?- questionou meio zonzo o velho funileiro- não está aqui ninguém, só vocês!...-arengou
-Aquele ali, com um casaco pre…
Antes que terminasse a conversa, um objecto contundente tombou brutalmente sobre a cabeça de Jaime, decepando-a do corpo, deixando o resto do corpo a cair desgovernado, o fato de vampiro jorrando sangue na estrada de macadame. Hugo ficou gélido, Boris Karloff de ocasião disfarçado para o Halloween. Sem que o Seca Adegas reagisse, o vulto chegou-se à frente, para zona iluminada, boquiaberto, Hugo reconheceu o rosto desfigurado do Vicente, lívido, e coberto de terra, segurando um machado de cortar lenha. Atónito, esfregou os olhos, o Vicente morrera três meses antes, como podia estar ali.
Olhando quer o vulto do Vicente quer o alheado Seca Adegas, viu chegar ladrando contente o Tejo, a roçar-se no regressado dono. Sem dizer nada, desatou a fugir, a capa de vampiro ondulando, embrenhando-se no mato e deixando o corpo inerte do amigo na viela sem luz.
Ao passar pela casa da velha Gracinda, esta estava à porta, segurando um candeeiro a petróleo, como se já esperasse por ele. Com um riso aberto e sórdido, apontou-o com a mão enrugada e carcomida e sentenciou:
-Acreditas agora no regresso dos mortos? O Vicente veio buscar a sua presa. Para o ano, será o Jaime quem virá buscar a sua! E como quem lança uma praga rematou ameaçadora:
-Assim é, na Noite das Bruxas. Hoje e na noite dos tempos!- e voltando para dentro apagou a luz, desaparecendo na escuridão da casa isolada no Torrado.
Em Cabriz, os amigos do liceu já eufóricos com a vodka preta e à luz de velas, faziam a festa, divertidos. Vera estranhou a demora dos amigos, e comentou com Pedro, escondido atrás dum disfarce de Scream:
-Onde estarão aqueles dois? Já tinham tempo de cá estar, meu!
-Não te preocupes, já devem estar com uma de caixão à cova…
Lá fora, a serra vigiava perturbadora e a noite silenciosa escondia mais um crime de 31 de Outubro. Alheio e brincalhão, o Tejo ladrava às cadelas no caminho do Torrado…

Sem comentários:

Enviar um comentário