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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Bombeiros, depois do fogo e das cinzas




Foto Pedro Macieira/Rio das Maçãs

Sintra tem pergaminhos na criação de corporações de bombeiros das mais antigas e valorosas do país. Desde logo a Associação de Socorros Mútuos 3 de Outubro de 1884, ou em 1885, quando uma comissão de sintrenses, reunida no Jornal de Cintra, decidiu organizar um corpo de bombeiros. A 1 de Setembro de 1889 foi criada a Associação dos Bombeiros Voluntários de Sintra, e em 1890 os Bombeiros de Colares e inaugurada a "estação de incêndios", sendo seu primeiro comandante Eduardo Rodrigues da Costa. A 24 de Junho a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Sintra, sendo seu primeiro comandante João Augusto Cunha e a 1 de Novembro de 1891 a Banda dos Bombeiros Volunios de Colares, sendo em 1895 a vez de Almoçageme. Momento alto foi em 27 de Agosto de 1905 a realização em Sintra do I Congresso-Concurso dos Bombeiros Portugueses, em Seteais. Várias são as corporações que em mais de cem anos salvaram vidas e propriedades, acorreram aos acidentes na estrada ou em unidades industriais, aos incêndios florestais e urbanos, aos naufrágios, ou tão só a resgatar o gato em cima da árvore ou amparar algum tardio transeunte com um grãozito na asa a caminho de casa. Desde sempre, a sirene uivante que ao longe anuncia a tragédia e inquieta as populações, é também o prenúncio do auxílio, de segurança e de resposta rápida e desinteressada
Há contudo que desenhar o futuro, e isso passa por modernizar instalações e equipamentos, apostar na formação permanente e pluridisciplinar, rever o estatuto social do bombeiro e incorporar os seus efetivos nas tarefas de prevenção no que aos fogos florestais diz respeito. As alterações climáticas com os ciclos de seca cada vez mais prolongados, o abandono da agricultura e a confusão no registo predial das propriedades indivisas e sem donos visíveis e a quem impor limpezas coercivas reforçam a necessidade de o Estado se substituir aos donos relapsos ou sem recursos se não quer ver o que resta do coberto vegetal desaparecer, com relevantes consequências na paisagem e no tecido social e económico das regiões.
Os bombeiros são e devem ser cada vez mais não só profissionais mas profissionalizados, sem descurar contudo o inestimável papel que o voluntariado deve ter em parte dos seus quadros, pois esse é o elo visível com a comunidade que reforça o sentimento de pertença através dum elemento essencial da nossa coesão social: o socorro nas emergências, na ação social, no transporte de doentes, nos incidentes em meio urbano. Estranha-se pois o papel secundário que desempenharam no desenho do relatório da Comissão Técnica Independente que juntou académicos, sobretudo, e quase ostracizou quem está no terreno, o conhece como ninguém, e mais não pode fazer por trabalhar com equipamentos obsoletos, recursos escassos e quadros envelhecidos. É corriqueiro dizer que os bombeiros são os soldados da paz,  fica bem e é justo condecorá-los e distribuir medalhas. Mas a melhor e mais coerente medalha com que podem ser agraciados é o de lhes garantir instalações condignas, dar-lhes proteção complementar enquanto agentes de atividades de risco, rejuvenescer os quadros, as viaturas e os equipamentos. Mas também registar e ouvir a sua experiência na elaboração dos planos municipais de proteção civil e de defesa da floresta, levar para perto de si psicólogos, silvicultores, veterinários, engenheiros do ambiente e outras valências cuja experiência e contributo possam auxiliar nas decisões da prevenção, do combate e do rescaldo das situações de emergência, a par do reforço do envelope financeiro que permita serem o verdadeiro Exército da Paz que se impõe nestes dias de guerra.




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