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sexta-feira, 18 de abril de 2014

A verdadeira história da Páscoa



Coelho Passos chegava para a Páscoa, Lisboa estava já cheia de espanhóis rezando pelo rating, por supuesto, sendo recebido em apoteose pelos fiéis, com Saulo Tortas gritando hossanas, enquanto era tocada música das Doce. Vindo de Berlim, conseguira à ultima hora negociar uma saída à caçadora, que reenviava os homens da troika para casa mais cedo. Aborrecido com o percalço, um tinha até já uma mariscada combinada no Guincho com o Carlos Moedas.
Ufano, ganhando pontos nas sondagens, convidou os mais chegados para um robalo no Gambrinus, era Semana Santa, convinha não abusar de carne. Antes de chegar, premonitório, porém, predisse que seria traído por um dos seus. Todos se entreolharam, admirados. Ao servir o presunto comentou: "Tomai e comei todos, este saiu-me do corpo". Logo após, em sinal de brinde, ergueu o Reguengos e disse: "Tomai e bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que por vós será emborcado para comemoração dos meus feitos”. À mesa, os doze correligionários celebravam, apenas Miguel Frasquilho, preocupado, via a taxa do vinho, 13º, em dez minutos subiria até o juro mais recalcitrante. Falava Passos com Barroso ao telemóvel quando, ruidoso, chegou o Corpo de Intervenção. Mal pousava o telemóvel para ver o que se tratava, logo Saulo Tortas lhe deu um beijo na cara de soslaio. Surpreendido e sem reacção, olhando ora Saulo ora os polícias, foi algemando ante o olhar incrédulo do desgrenhado Poiares Kuduro. Em bicos de pés, Marques Mendes bem tentava chegar ao corpulento comandante da força para lhe explicar que cometia um grave erro, que aquele era o Primeiro dos Primeiros, Senhor do Défice e Guardião de S. Bento, mas nada, havia ordens expressas. Infiltrado, Tortas combinara a revelação do local do jantar com Pôncio Cavacus, o Governador de Belém. Em troca iria para embaixador na OCDE, precisava de descanso, nada como Paris, longe da crise e da dívida. “Eis o vosso homem”, apontou Tortas, com ar sério. A coisa era séria, na verdade.
Levado ao Parlamento, reunido de emergência, apesar da Semana Santa, sentado algemado na bancada do governo, vários deputados o cercaram como chacais. Inquisitorial, Saulo Tortas abriu o interrogatório:

-Sabemos, Primeiro dos Primeiros que contra nossa vontade negociaste um novo acordo com a Angela Lidl, a valquíria do euro. Quem te mandatou para fazeres alianças com os teutões?
-Sim- rancorosa, Manela Ferreira Leite, carinhosamente tratada pelos amigos como “a Bruxa Velha” quase lhe enfiava o dedo num olho- eu bem avisei…- e virando-se para Pacheco, o filósofo de serviço, buscou apoio:- avisei, não avisei?….
O Coelho Passos pasmava com este autêntico golpe de estado. Quisera chamar apoios mas com o fim de semana prolongado estavam todos no Algarve a discutir os cortes em Vilamoura. Altivo, manteve-se calado, afinal falar com estes era para ele um frete, um simples telefonema e despacharia a oposição, tonitruante mas inofensiva. Pensava, enganado porém.
Dali, os líderes sublevados levaram-no a Pôncio Cavacus, que em Belém se deliciava comendo um pedaço de folar. Acusavam-no de trair o país. Pôncio hesitante ainda pensou enviá-lo de presente a Gerónimo, chefe das hordas do Sul, mas este, ouvido ao telefone, devolveu-o a Cavacus. Era de praxe libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Cavacus alinhou o Coelho Passos e um burlão de nome Oliveira e Costa, o “Robin dos Bosques dos ricos” na escadaria do palácio, e pediu à multidão  que escolhesse qual dos dois deveria ser  libertado. A multidão voltou-se contra Passos e escolheu o velho, pelo sim pelo não podia ser que pagasse os calotes do BPN- Banco de Pagamentos Nocturnos. Então, Cavacus, lavando as mãos entregou-o, para ser crucificado num interrogatório conduzido por Manela Ferreira Leite.
A crucificação era a forma comum de execução em prime time e aos domingos à noite. A Passos, em fato de treino, enfiaram na cabeça umas orelhas de burro, ao pescoço, pendurado, um retrato de Gaspar, o Avarento. A seguir, forçaram-no a levar até aos estúdios e a pé, três caixotes com o projecto dos cortes nas pensões, aí, esfregando as mãos, a megera Manela o esperaria no estúdio 1.

Lá chegado, e já bastante combalido, sentaram-no numa cadeira, e cruéis, negaram-lhe o teleponto. Acesas as luzes, e dado um grande plano da presa, Manela atacou:
-Diz-me, tu a quem chamavam Primeiro dos Primeiros, são ou não verdadeiras todas as acusações que te fazem: é verdadeiro o negócio dos swaps? E o curso do Relvas? E a venda da TAP?. E a derrota do Porto? E aquela vez que o meu marido falhou na cama comigo alegando cansaço? Não vale a pena negar, eu e os espectadores sabemos tudo- carnudos, os lábios pareciam jorrar sangue, a um canto, Marcelo, o Magnífico, assistia deleitado, lendo quatro livros de cada vez e uma biografia de Charles Dickens. Já o pior parecia ter passado, sempre o mandando calar antes que pudesse responder, quando cruel, nova tortura estava preparada: Sepulcral e envergando uma túnica negra, de gadanha na mão, Louçã avançava com a sentença do público, votada a 60 cêntimos mais IVA: como castigo, a demissão e o exílio. Antes de o levarem, levantou os olhos ao Céu e suspirou:
-Angela, Angela, porque me abandonaste!
O Novo Primeiro dos Primeiros, empossado no Domingo de Páscoa foi o finlandês Soini, que depois de apear as fotos do Coelho Passos pôs o país a arenque e instituiu a semana de 166 horas, com apenas duas para descanso e para uma pequena sauna. Os do Parlamento e Cavacus ainda reclamaram, mas tardava já, o ancião Medina Carreira, novo ministro da Salvação Nacional ordenara o fecho do hemiciclo e a abertura em S. Bento de um call-center para atender queixas contra políticos. Indignado, Saulo Tortas comentou com a Bruxa Velha:
-Acho que errámos, Manela. Queríamos amêndoas na Páscoa e saiu-nos  foi amêndoa amarga….

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