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domingo, 18 de agosto de 2013

Carlos da Maia regressou a Sintra

Numa altura em que o Expresso edita diversas versões duma possível continuação de "Os Maias", de Eça de Queirós, aqui reedito uma versão minha de 2010, editada no meu anterior blogue Café com Adoçante.

Carlos da Maia e Cruges voltaram por estes dias a Sintra, não de break mas de comboio, fazia tempo que lá não iam. Ao sair da estação, na direção da Vila, logo os imundos logradouros do Larmanjat lhes surgiram à direita, após a estação, um rato, talvez turista, serpenteava entre entulho:

-Como isto mudou, Carlos- desabafou Cruges, abismado e  apossado dum sentimento de tristeza- No nosso tempo isto estava muito mais bem tratado…

-Houve alguma greve, por certo, amigo Carlos, isto a crise, meu caro, é o que se vê.... -amenizou o amigo, encolhendo os ombros e dando o benefício da dúvida.

Pedantibus calcantibus, seguiram para a Vila, já sem banhos termais, buscando o remanso do Hotel Nunes, mas surpresa das surpresas, no local, em vez de um estavam agora dois hotéis: um tal Tivoli, edifício em tudo igual aos prédios da Porcalhota por onde o comboio passara de manhã, e uma ruína com o nome Netto. Que  teria sucedido? Novo terramoto, e ninguém soubera em Lisboa? Pois que cenário dantesco, e que ruína, apetecível só para um dramalhão do Garrett ou ópera de  Wagner, fanático de tragédias sanguinárias. Perto do palácio, o Eusebiosinho, um pouco mais obeso, e o Palma Cavalão passeavam com duas espanholas:

-Pois por aqui, meus caros? -saudou com ar malandro Carlos da Maia. Os meus amigos estreitam laços ibéricos em Sintra?...- as espanholas, garridas, abanavam um colorida leque, agarrando os dois amigos que nem lapas.

-Meu caro, nem queira saber. Fomos à Regaleira, que é coisa nova,  daquele poltrão do Monteiro, o homem enriqueceu e deu-lhe para se armar em artista, está um espanto, mas estacionar o break, nem pensar! Parece dia daquele jogo que os ingleses disputam em ceroulas, o foot-ball.

-E las viviendas, por supuesto, tan preciosas pero tan molestadas -rematou a Lola, uma das espanholas, agarrando o braço do Palma Cavalão e sacudindo o leque, encalorada.

-É como lhe digo, Eusébio, isto mudou muito, mas há por aqui muita coisa a precisar de obras. Isto quer é um Fontes! -elevou a voz o Palma, beliscando o traseiro da Lola, salerosa.

Passada a cascata, nos Pisões, repleta de heras e musgos húmidos, surgiu-lhes Tomás de Alencar, o  poeta e velho amigo do pai de Carlos, que, agradado com o encontro, se juntou ao grupo num passeio a Seteais, bons momentos lá havia passado. Escondida pela Sobreira dos Fetos, a Quinta do Relógio do negreiro Monte Cristo estava  fechada e abandonada. Salteadores recentes por certo, opinava o Alencar, abismado.

-Parece que o administrador do concelho vai aforar isto. Será para algum hotel, com águas quentes e frias? -questionou o Cruges, sacando do monóculo para observar melhor.

-Olhe, cá pra mim eu abria aqui era um centro para apoio de artistas, era bom para si, Cruges, aqui à sombra da serra, com os seus botões... -alvitrou o Eusebiosinho, provocador.

-E  pedia apoio ao conde Paes do Amaral, ele vai mudar-se para cá em breve, sabia? Isto, os dinheiros do tabaco…Vai sair dali uma verdadeira mansão, olá se vai!

-Agora já não é do tabaco! Você não lê os jornais, ó Eusébio? Não ouviu falar do PSI-20? -atalhou Carlos da Maia.

Na verdade, ao chegarem a Seteais, Cruges sentiu-se triste com o que lhe foi dado ver. Apesar de rejuvenescido o palácio, no lado oposto, a partir de um pequeno anexo de jardim nascia qual míscaro gigante, um solar imponente, tumefacto entre os arbustos. Só ao Alencar, lunático, lhe deu para fazer um soneto a Sintra e sua exuberância, esquecendo o preocupante tumor.

Na impossibilidade duma burricada, por falta de asnos de quatro patas, decidiram-se a visitar o novo bairro da Estefânia e lá foram  os cinco, Carlos, com o pensamento em Maria Eduarda, optou por procurá-la na vila, fora esse, afinal, o motivo da sua ida a Sintra. Mal chegados à Estefânia, o cenário apresentou-se caquético: lojas de asiáticos vendendo traquitanas sem gosto, casas antes solarengas caindo arruinadas, lixo mal acondicionado transbordando de contentores e esvoaçando no empedrado, casas argentarias, agora designadas por bancos, por todo o lado. Enganavam-se, com certeza.

-Diga-me cá, amigo, nós queríamos ir ao bairro novo, um dedicado à saudosa rainha D. Estefânia, não era aqui…-atalhou o Cruges, abordando um saloio na rua.

-E onde pensa vomecê que está? É memo aqui! -ripostou rude o saloio, não queria lá ver o fidalgote.

-Pois…-desalentado, o Cruges abanou a cabeça. Bem suspeitava.

-Olhem, sabem que mais? Vamos é para Lisboa, que há uma peça nova no teatro da R. dos Condes! –rematou o Palma Cavalão, piscando o olho à Lola, e torcendo o bigode. E retornando à Vila, recolheram Carlos da Maia, que procurava romper com a bengala entre hordas de japoneses, e voltaram na linha de ferro à capital. Ao longe, a silhueta milenar dos Mouros continuava perene sentinela, sagrada, coisa do mundo de Deus. No mundo dos homens, muito mudara em Sintra, umas coisas  boas, outras novas, mas nem sempre as novas eram boas ou as boas eram novas.

-Isto quer é um Fontes! -ainda resmungou o Cruges, empunhando a bengala.

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