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sábado, 13 de julho de 2013

Poirot e as férias em Sintra



Naquele Verão Poirot e Hastings decidiram-se por umas férias exóticas: longe da verde mas fria Cornualha, tentariam Portugal, Catherine Nightingale, uma sua admiradora, vivia no país e convidara para duas semanas no continente. A viagem desde Madrid foi no Lusitânia Express, nada das comodidades do Expresso do Oriente, mas mais tranquilo à chegada, contudo.

Na Estação do Rossio esperava-os o motorista de Mrs. Nightingale, um português com alguma idade e fardado a rigor, de nome Pacheco. Poirot reparou que tinha um tom de pele escuro, sangue africano, por certo. Mirando a cidade, pareceu-lhe agradável, um estranho troar de vozes sugeriu-lhe desacatos, mas eram varinas com cabaças à cabeça, apregoando peixe na Baixa. Colorido e étnico, pensou, colocando as luvas brancas e ajeitando o monóculo, o bigode escuro e retorcido não o distinguia muito dos locais, como ele, maioritariamente de cabelo escuro e estatura mediana.

Em Sintra, Catherine preparara dois quartos e um almoço farto, com geleia de maçã para a sobremesa. A casa era uma soberba mannor na estrada da Pena, a Hastings lembrou a placidez do Lake District, com o mar a duas milhas. Antes fora propriedade dum negreiro que fizera fortuna no Brasil vendendo escravos para os engenhos de açúcar, com uma traça muito particular. No salão, pontificava um retrato do antigo proprietário, de chicote e com uma sanzala em fundo, bem como as armas do major na parede. Catherine enviuvara recentemente do major Nightingale, que estivera com Allenby no Cairo nos anos vinte, apaixonada pela beleza de Sintra, que conheceu durante uma viagem com o major a Portugal, por cá ficou, pintando e trabalhando como correspondente do Daily Chronicle.

Por esses dias sentia-se uma tensão latente nas chancelarias, Portugal seguia alheio, sob a batuta de Salazar. Em Sintra, agradado com o clima, familiar ao das ilhas, Poirot dedicou-se ao seu hobby mais recente: colecionar borboletas, as matas de Monserrate e da Pena eram fartas em exemplares. Armado dum camaroeiro, a tal dedicou as manhãs, enquanto Hastings ia até à praia no elétrico, tomar um refresco e ler na esplanada do Grego.

Cinco dias depois, ao descer para o pequeno-almoço, encontrou Catherine particularmente agitada: o quadro do negreiro, no salão grande, sumira. As janelas e portas estavam fechadas e não havia sinais de arrombamento. Poirot, agastado por atrasar o pequeno-almoço, mirou o salão, mas tudo pareceu no lugar, apenas o quadro sumira. Após um exame detalhado, perguntou quem mais tinha acesso à casa, além de Mrs. Nightingale. Apenas uma empregada portuguesa, a Alice, e esporadicamente o Pacheco, o motorista morava na serra e só fazia serviços quando chamado. Alice, nada vira, dormira com as galinhas, pois manhã cedo teria de ir buscar queijo e frutas para o pequeno- almoço dos senhores, Pacheco não voltara lá desde que fora a Lisboa buscar os visitantes. Hastings, cansado dos ares do mar, toda a noite roncara, Poirot incomodado bem ouvira, o quarto era ao lado do seu e a parede de madeira.

Tomado o pequeno- almoço, o belga saiu até à vila, para um passeio, e apenas voltou pelo almoço. À tarde, sem nada dizer, voltou a sair, a visitar o palácio da vila, segundo disse. Hastings estranhou-lhe o desinteresse pelo roubo, a polícia foi porém avisada e a GNR tomou conta do ocorrido.

Antes do jantar, Poirot pediu a Mrs. Nightingale que chamasse Alice e Pacheco e reunissem na sala, tinha uma revelação a fazer. Hastings, conhecedor do amigo e seus segredos, antecipou que seria sobre o roubo. Poirot, em pé, impecável no seu fato escuro, rematado com umas polainas brancas, passou a explicar:

-Messieurs, merci por terem vindo. Como sabem, um valioso quadro de mrs Catherine foi furtado desta casa pela calada da noite. Neste momento, creio saber quem abusivamente terá levado o quadro retratando o primitivo dono desta casa, monsieur Gouveia de Ornelas!

-Sabe? E quem foi, mr.Poirot? -perguntou Catherine, arregalando os olhos.

-O dinheiro motiva muitas vezes o crime, madame, o quadro é da autoria de um pintor português famoso, Vieira Portuense, e até tem valor económico. E o dinheiro é sempre um bom motivo para o crime, não é miss Alice? -sublinhou, virando-se para a empregada, de famílias modestas e apenas há seis meses ao serviço da inglesa.

-O que é que está a insinuar sr.Poirot? Sou pobre mas honrada, meus pais já serviram o sr. Carvalho Monteiro e o conde de Sucena, nunca faria mal à senhora Nightingale, que tão boa tem sido comigo! –replicou, quase chorando, Catherine aguardava expectante o desfecho da história.

-Eu sei, miss Alice, eu sei. Mas o criminoso não atuou por dinheiro, creio…. Virando-se para Pacheco, até ali sorumbático e em silêncio, Hercule sondou:-Tem ido muito à Camélia, senhor Pacheco?

-Como diz? A Camélia? Porque pergunta? -surpreso, o motorista ignorava que o belga conhecesse a papelaria da vila, nessa tarde, a pretexto de comprar o Times, Poirot estivera lá à conversa:

-Parece que costuma lá ir muito. Aliás, a entrada está um pouco desagradável, há muita areia no chão por causa de umas obras. Como aquela que trás nos seus sapatos, não acha?

Os sapatos de Pacheco tinham vestígios de areia, amarelada e grossa. Antes que dissesse algo mais, Poirot continuou:

-Igual àquela que está aqui junto à lareira, estão a ver? -com um pedaço de papel branco, Poirot recolheu areia do chão junto ao local onde antes estivera o quadro. Todos olharam para Pacheco, que ruborizado contrariou o belga impertinente:

-E isso que prova, senhor Poirot? Qualquer pessoa podia ter passado pela Camélia e pisado a areia. Aliás, o senhor é o primeiro a dizer que esteve lá esta tarde, quem garante que não foi o senhor?

-Duas questões, messieur Pacheco. Na papelaria, o senhor Mourão, um antiquário local, falou-me que o senhor lhe prometeu vender umas antiguidades que teria herdado duma tia. Mas o senhor Cunha, da casa das queijadas, garantiu-me que o senhor não tem família. E mais: que a sua avó terá sido uma escrava trazida para Sintra pelo senhor Gouveia de Ornelas. Grávida. É verdade, n’est-ce pas?

A argúcia de Poirot deixou o mulato estarrecido, olhando Alice e Catherine fez silêncio uns segundos e finalmente decidiu abrir o jogo:

-Sim, é verdade, fui eu que tirei o quadro. Mas não foi por dinheiro! Desde que minha mãe me contou que esse patife abusara da minha avó, jurei que havia de vingar a sua memória. E para mim isso passava por destruir a única imagem que dele restava ainda hoje, o quadro. Não tencionava vendê-lo, mas destruí-lo apenas!

Catherine, sensibilizada, aproximou-se de Pacheco, que ficou em silêncio, colocando-lhe a mão no ombro, tranquilizou-o:

-I understand you, António, really, I do! E como prova disso, faremos o seguinte: traga o quadro. Vamos queimá-lo todos no jardim, e assim afastar desta casa o espírito do Ornelas!

Poirot ufano, sorriu e torceu o bigode fino:

-Trés bien, assim sendo, se não se importam, comeria um pouco da esplêndida galinha que miss Alice tem no forno, que já lhe senti o cheiro. E amanhã, bientôt, serra, que as borboletas aguardam!

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