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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sintra numa manhã de Janeiro



Sintra, espectral viagem, sabendo a serra ao lado, milenar guardiã de lendas, num presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros. Em volta se absorvem seus cheiros e matizes, o silvar ventoso e o perfume da serra. Passo a Correnteza, miradouro e varanda, parapeito de amores e de pombos, e aproxima-se o burgo, ao som cadente de cavalos e de pretéritas lembranças. O paço municipal é a porta de entrada e guardiã fronteira, o leão de pedra a sentinela, palpitam os sentidos à vista da estrada do Duche, do Grande Maior, das camélias de Nunes Claro, e parece ver-se o vulto do Carvalho da Pena cavalgando entre eucaliptos  penumbrosos. Sintra, utópico altar de poetas, palpável Parnasso onde na noite dos tempos perpassam danças medievais e bailes das camélias, invisíveis ogres lançando caldeirões de azeite, perturbantes bruxas invadindo a noite em vassouras, sob o repicar do sino em S. Martinho, sempre a  holográfica viagem por um mundo que não é deste Mundo à sombra duma argêntea e virginal lua. É apenas uma manhã fria de janeiro, o mês que nos levou Maria Almira e traz a névoa húmida do spleen e as gárgulas dos dias tristes e perturbantes.

Só em Sintra há dias assim, só a Sintra pode um dia regressar D. Sebastião, o de todas as esperanças e todos os medos, pois Sintra é Adamastor e promontório, mas também bosques de faunos celebrando a vida e o verde que nos invade e de nós se apodera.

É Sintra. É Janeiro. É manhã.

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