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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O naufrágio da Humanidade


 
Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras, vindos da Síria, Líbia, Eritreia, Sudão, Afeganistão ou Iraque, países mergulhados em conflitos étnicos, religiosos, palco de senhores da guerra e do cinismo geopolítico das grandes potências.
 
Cada vez em maior número, vistos numa óptica securitária e com receio, os refugiados são em larga escala pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos humanos, não obstante os piedosos e retóricos tratados, acordos e protocolos internacionais visando protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo, por vezes com uma mera fronteira física ou um lago a separá-los.
 
A separação dicotómica neste mundo pós-moderno entre ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, sunitas e xiitas, com que se tem rotulado comunidades inteiras, criou uma nova categoria de cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, os desejados de um lado e os indesejados do outro. Hoje, deparamo-nos com novos escravos e estes têm um nome: refugiados, os novos indesejados, ameaçando a estabilidade económica e social e fazendo florescer sentimentos xenófobos e de afastamento, apesar das piedosas mas distantes e súperfluas campanhas nas redes sociais ou em protestos coloridos mas que não tiram ninguém da sua zona de conforto, como o não tiraram os Charlies ou os protestos anti-globalização dum passado recente, mobilizadores de jovens burgueses para happenings vistosos e pouco mais.
 
São precisas políticas humanitárias de inclusão social e acolhimento. O refugiado é alguém que perdeu quase tudo, e para quem apenas subsistiu a esperança, a raiar o desespero. Forçado a deixar o seu país, deambula hoje como zombie esmolando uma cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.
 
Segundo um relatório de 2002 do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete foram acolhidos por países pobres, e entre 1992 e 2001, do total de refugiados, 86% provinham de países pobres. Quando virão os países desenvolvidos a assumir um papel proeminente na protecção dessas massas humanas em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando nada mais que o sagrado direito à vida?. É urgente um Pacto de Humanidade visando a superação deste estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, e que destaque a urgência do respeito pelo ser humano na sua diversidade bem como as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas.
 
Se na frente diplomática é preciso por fim aos conflitos, sem sofismas ou tacticismos, é preciso igualmente tudo fazer para acabar com o tráfico de seres humanos, que acrescenta sofrimento e insegurança a populações já causticadas pelos conflitos que não criaram. E rejeitar os  discursos etnocêntricos, pois a humanidade constitui um só povo.
 
Aos refugiados é preciso reconhecer o direito de ser aceite, conferir-lhe direitos de cidadania que lhes devolva uma identidade e o direito de constituir e manter uma unidade familiar, o reconhecimento do casamento e os direitos para os seus filhos, sem cuja superação teremos o crescimento de um contingente de párias sociais. Mas também o direito a manter as suas crenças religiosas, a manter e praticar a sua língua materna e o seu património e herança cultural, o direito à educação e reconhecimento das suas qualificações, o direito a um emprego e remuneração dignos e em igualdade com os naturais dos países de acolhimento, e, sobretudo, o direito à segurança que os fez sair das suas pátrias, comunidades e famílias, para um mundo que julgavam deles e muitos teimam em considerar coutada privada com admissão reservada, e o direito de poder transitar livremente dentro do país que os acolheu e deste para o exterior, sem serem tratados como presos em liberdade condicional.
 
A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos. Se esta visão pudesse ser rapidamente transformada em realidade pelos governos nacionais, muito em breve, e quem sabe ainda na primeira metade deste século XXI, teríamos um mundo onde o conceito de refugiado seria considerado algo ultrapassado. Até lá, continuaremos a ver chegar às praias do Mediterrâneo vidas que se perderam pela indiferença e rejeição. Uma vez mais, os sinos dobram. E dobram por nós, analfabetos da Humanidade e náufragos da solidariedade, alcateia ao invés de rebanho e seita em vez de comunidade.

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