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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Paris já está a arder


Vendo a Notre Dame em chamas, recordo a minha primeira viagem a Paris, nos idos de 1979. O velho Sud-Express, testemunha de muitas partidas dolorosas e excitadas chegadas, de emigrantes a salto e camones louros que de fora traziam a Europa ao rincão, em tempos de chumbo e melancolia, foi a minha porta de embarque para um primeiro banho de Europa e para muitos que fora de portas pouco ou nada conheciam. Aos castanhos de Portugal e Espanha, recortados pelos picos nevados dos Pirenéus, a Europa surgiu molhada, em Irun, na mudança para comboio mais moderno e paisagens de vinha e castelos, a Provença e a França industrial. A verdadeira Europa começava aí. Paris foi uma sensação esquisita: a tão aguardada Cidade Luz, fosse pelo tardio da chegada ou pelo cansaço da viagem, pareceu sombria e soturna: uma ratazana coquette serpenteando nos carris, em Austerlitz, já na gare, um clochard sem abrigo dormindo e fazendo duma caixa de sapatos uma almofada. Paris, enfin!...
O dinheiro não era muito, mas a diversão imensa: passeios em Pigalle, fotos no Moulin Rouge, a aventura dumas ostras no Boulevard des Italiens, que se danasse, a vida eram dois dias. Ao fim da segunda noite, na esplanada do Café de La Paix, não estavam Breton nem Hemingway, mas alguns portugueses e o mundo, razoáveis exigindo o impossível, despreocupado, um velho acordeonista tocava canções de Chevalier e Trenet.
A Notre Dame era a velha senhora, do alto dominada por Montmartre, impondo a grandeza do tempo das catedrais feitas para distanciar os Homens de Deus, entre anjos, vitrais e esfíngicas estátuas. Entrando reverente, lembrei o corcunda da história, quiçá escondido num torreão entre as gárgulas, o suplício de Jacques de Molay, ali perto, ou o casamento de Bonaparte com uma pouco provável Josefina. E dali, a vista para a Rive Gauche, de Sartre e Levi Strauss, de alfarrabistas, pintores e poetas parnasianos, Toulouse-Lautrec ou Edith Piaf.
E os versos de Eluard:”et d’abord j’ecriverai ton nom: liberté”.
Arde Paris e ardem séculos de holográficas epopeias e insuportáveis misérias. Não arderá a memória, pois se para glória de Deus foi feita esta glória dos Homens, do engenho dos Homens ressurgirá de novo a silhueta gótica da vetusta e senhorial catedral.


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