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sábado, 12 de dezembro de 2015

Imagens a sépia


Uma reunião com um advogado amigo nas Avenidas Novas, levou-me a Lisboa por estes dias ao prédio contíguo àquele onde vivi muitos anos, quase desde que nasci. O velho edifício dos anos vinte ainda lá está, hoje ocupado com escritórios, e por momentos vi-me de volta a um passado sépia com mais de quarenta anos.

Há muito moro perto de Sintra, numa casa de Verão que com o tempo passou a ser permanente, Lisboa agora só para ir ao teatro ou ao tribunal, e francamente, não desejo voltar. Não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz.

O prédio lá está, recheado de memórias e sons dum passado adormecido. Lembrei-me do enorme corredor da casa onde cresci, com oito assoalhadas e duas criadas que o meu avô mantinha em sentido. Com ternura revi as brincadeiras no quintal das traseiras, a única entrada autorizada aos empregados e ao leiteiro com as vasilhas de metal, cheio de patos e galinhas nas capoeiras, quando a cidade era rural ainda, e no Natal ficava povoada de perus que previamente embriagados seguiriam para o jantar da consoada. E lá está ainda o prédio da minha velha escola primária, na rua contígua, que saudades da D. Inês e do bibe branco, do bivaque da Mocidade, cujo significado desconhecia, do carocha do meu pai, das cadernetas de cromos e do Cavaleiro Andante. Tudo desaparecido, arquivado em velhas fotos, ou definitivas lápides de cemitério. A igreja de Fátima lembrou-me as missas de domingo com minha avó, a primeira comunhão, o crisma, os veludos roxos que durante a Semana Santa cobriam os santos, para tudo acabar num suculento borrego no domingo de Páscoa.

A reunião tardou, e dei comigo a deambular pelo escritório do colega, lembrando personagens há muito levados: o Chico polidor, enfrascando-se na leitaria do Narciso, o Almeida da mercearia, do açúcar mascavado, a casa do doutor Ruah, refugiado da guerra, e os amigos de infância, na minha lembrança sempre miúdos e de calções, e a quem perdi o rasto, um ou outro penso já ter visto no Facebook, mas não ousei averiguar, prefiro-os depositados no passado, na secção de boas memórias e na prateleira da saudade. Ao toque dum sino, recordei a primeira comunhão, com apenas sete anos, quando na igreja de Fátima tive de confessar terríveis pecados mortais, o afogamento de uns coelhos recém-nascidos que com a Lígia e a Aida atirei ao poço, julgando serem ratos, e me valeram uma iníqua tareia, depois de libertar o quintal de roedores.

Foram tempos felizes. Os jantares de Natal em família, avós, netos, criados ou os primos do Alentejo, ou o dia em que feita a quarta classe o meu avô me ofereceu um relógio e fez um depósito de cem escudos no Montepio, para levantar só quando chegasse a maioridade. E a vaga sensação de que apesar de feliz, nem tudo corria bem. Uma guerra em África de que nada sabia, até o tio Artur ter sido mobilizado para Angola, o Zeferino, meu explicador de matemática, que estivera preso num tal Tarrafal, e aquele dia em que toda a família foi à estação do Rego acenar com lenços brancos ao comboio que levava o caixão dum importante senhor que caíra duma cadeira e ia a sepultar em Santa Comba. Veio Abril e a adolescência esperançosa, sonhos e lutas, a licenciatura em Direito, projectos cumpridos e por cumprir, o mundo cresceu para fora das Avenidas Novas e fui até onde os aviões e a vontade me levaram, sempre retornando, e sempre partindo.

Os fantasmas à solta nas Avenidas Novas recolhiam agora, finalmente a secretária do Frazão chamava para a reunião, amável, veio receber-me:

-Meu caro, desculpa o atraso, o trânsito, sabes…. eu sei que és um homem lá da linha, és um sortudo, sabes lá o inferno que é trabalhar em Lisboa. Deste com a morada facilmente?

Sorri, e fui entrando, sem pressas:

-Não foi fácil, é raro vir para estes lados. Come-se bem por aqui?....

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