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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Visita do Diabo


NOS 48 ANOS DO INCÊNDIO DA SERRA DE SINTRA
 



6 de Setembro de 1966, Sintra era notícia  na imprensa nacional e estrangeira, violento fogo lavrava com intensidade brutal na Penha Longa, Lagoa Azul e Capuchos, favorecida por elevadas temperaturas e constantes mudanças de vento. Seteais, Monserrate, a Pena e até S. Pedro, estavam em risco, e todos os corpos de bombeiros do distrito de Lisboa mobilizados, aos quais se juntaram homens das Caldas, Elvas e Leiria, forças militares e civis, num total de quatro mil homens. Sitiada, Sintra era pasto das chamas que assassinas cruzavam o ar e a vila de turistas e veraneantes transformada em quartel para uma batalha que durou seis dias, lançando cinzas e fumo a quilómetros, sob um clarão enorme e infernal.

Por esses dias, Luís fazia a tropa em Queluz, a vida do quartel repartida entre serviços rotineiros e a angústia por uma chamada para o Ultramar. Aos vinte anos e noivo da Angelina, a oficina de torneiro do tio haveria de chegar para começo de vida, se tudo corresse bem, uma casa em Queluz estava debaixo de olho. O incêndio apanhou-o no quartel, o Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz, onde durante toda a manhã do dia 6 se escutaram sirenes. A Emissora relatava danos na vertente de Cascais, mas por toda a serra focos se espalhavam incontrolados, populares com ramos de árvores, cansados e impotentes, faziam o que podiam. Preparava-se para almoçar uma feijoada quando o comandante de batalhão mandou formar na parada, era preciso acorrer ao fogo, todos os meios estavam a ser mobilizados. Reunidos em viaturas, saíram a dar apoio. A abundância de mato por limpar ajudava a propagar as chamas, Luís, com mais alguns homens foi enviado para perto da Peninha, se bem que se denotasse no tenente que comandava insegurança sobre onde atacar e quando. Os comandantes dos voluntários dividiam-se sobre a frente prioritária, apagado num lado por viaturas em idade de reforma, reacendia logo noutro, e zonas antes cerradas eram agora clareiras incandescentes. Envolta num braseiro, a Tapada do Mouco já pouco tinha de verde. O Antunes e o Fernandes, do pelotão de Luís, rudes e habituados à mata, ajudavam a dar luta, inglória porém, Lúcifer parecia ter-se mudado para Sintra levando o inferno até lá. Nessa noite, pernoitaram na serra, poucas e inseguras horas, senhoras do Penedo alcançaram leite e pão com presunto. Passando no local, um jornalista dizia ao major que se falava em decretar o estado de sítio, e mandar vir homens de Santa Margarida, tais as proporções que o fogo tomara.

Durante todo o dia 7, exaustos e sem coordenação, Luís e os camaradas quais baratas tontas, acorreram aonde o tenente ordenava, a chuva de Setembro, que tão necessária era, tardava em aparecer. Segundo os comandos, cinquenta quilómetros estariam sob o pasto das chamas, vestígios na Lagoa Azul indiciavam origem criminosa. O Antunes transpirava, de galho na mão, asfixiados pelo fumo, dois cabos tiveram de ser assistidos e voltar para o quartel. Luís fazia o que podia, pensando quando tudo terminaria. Todo o dia a serra ardeu. Chegada a noite, o clarão laranja do apocalipse voltou a sentir-se no seu belo horrendo, persistente, o fogo levava a melhor. Motobombas dos Lisbonenses passaram por eles em correria e reposta a água necessária, concentraram-se num local elevado, mas perigoso.

Temerário, o tenente mandou avançar para o Alto do Monge, tentaria um corta-fogo, e aberta uma frente, combater fogo com fogo, esse inimigo sem pernas nem balas, a estratégia pareceu adequada. Todos os homens se colocaram no epicentro do incêndio, bombeiros e civis protegiam as povoações. Aos poucos, perdiam-se cem anos de floresta, visto de Cascais, era o juízo final. A dada altura, o Antunes gritou por trás dele, uma mudança do vento criara nova frente ali perto. Luís ficou apreensivo. Fogo pela frente e pelos lados, uma coluna de fumo por trás, o tenente ordenava que se mexessem, ele próprio tentava posicionar-se. Mais vinte e um camaradas estavam no penedo perto da anta do Monge, por ironia chamado Cerro da Queimada. Aumentando o calor e o fumo, deixaram de se ver uns aos outros, gritos lancinantes abafados pelo fogo invasivo anunciavam o Inferno colhendo novas vítimas, impotentes anjos naquele Setembro negro. Afogueado, Luís viu-se perdido, já não via nem ouvia os camaradas. De relance, pensou em Angelina, olhou o céu, vermelho, e absorto sentiu-se levar, colhido e febril. Possuída, a serra de Sintra ganhava mártires e os homens, heróis. Até que Lúcifer, desperto, regresse, ameaçador e inclemente, faminto de carne esturricada e impotente. Regressará?
 
 

 

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