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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Xaimix, Homem Cérebro Electrónico


Julho de 1966.Mais um Verão em Galamares, o carocha preto rolava pela estrada de paralelepípedo rente aos pomares rasgados pelo elétrico aberto, de onde por vezes furtivamente se apanhavam nêsperas empoleirados no estribo. A escola acabara, as férias prometiam aventuras, fugidias enguias no rio, o teatro amador na garagem, a velha Amália abrira as portadas para sair a humidade. O Verão chegava para as famílias da capital a banhos e toldo ao mês na praia, no café voltavam as habituais tertúlias, enquanto os mais novos se divertiam com os matraquilhos ao “perde paga” e discos de vinil com os hits do momento.

Tudo corria sem pressas. Chegados dias de sol, uma fauna de artistas e escritores invadia a mansidão do local, enchendo as seis pensões e as casas de vilegiatura.

Não havia Verão, porém, sem o Xaimix. Xaimix, o Homem Cérebro Electrónico, ilusionista, trapezista, andarilho, com os seus truques de cartas e as moedas tiradas das orelhas, perante o espanto dos miúdos boquiabertos, num tempo de televisão a preto e branco e de um canal só. Todos os anos, a esplanada do Alcino se enchia para ver o Xaimix, Houdini dum pequeno mundo de sonhos e ilusões, com os seus truques acompanhados pela virtuosa harmónica bocal. Homem dos sete instrumentos, surpreendia e encantava, deixando todos a adivinhar como a marosca era feita, oferecendo fantasia a troco duma pequena moeda.

Vários anos passaram e numa madrugada redentora chegou um tempo novo, as árvores viram novos pássaros e escutaram novos sons, inusitados cartazes nas paredes, caseiros agora sentados na mesma mesa dos senhores doutores, renovando a magia de sempre. Eterna, a brisa vinda do mar oceano sopra ainda sobre a casa cheia de mundos idos e outros por vir, sentinela, a esplanada do Alcino, alpendre das conversas de muitos anos, desapareceu.

O Xaimix envelheceu sem abandonar a ribalta e continuou com a sua harmónica, agora para os filhos dos miúdos, ainda intrigados com os truques, desconfiando das cartas marcadas ou da partenaire comprada. Nunca descobririam. O Xaimix, era um personagem de Fellini, Merlin daquele pequeno mundo, fugindo do cinzento no colorido palco que para ele a vida foi.

Morreu já e foi enterrado com o seu traje de ilusionista, artista na vida e na morte. O mundo continuou, a serra quedou-se sentinela, o elétrico voltou a serpentear, a harmónica bocal, essa, ecoa ainda, roufenha, na nuvem onde para sempre continuará a tocar.
 
 

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