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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Primavera Outonal



A Primavera em Sintra, como habitual, chegara com noites cacimbadas e nortada agreste, apesar da irrupção das cores e clorofila. Gilberto pensara em ir para o Algarve, para uns dias em época baixa, a doença da mãe aconselhou a ficar por perto, há vinte anos que não fazia férias em Colares. Pouco mudara, nestes anos,lá estavam o Pomarinho, os patos no rio, o quiosque dos jornais para um abastecimento de notícias com que  entreteria a bica no Cantinho da Várzea. Os velhos plátanos, polémicos depois de uma  poda agressiva, subsistiam ainda, o Miguel Esteves Cardoso, dali escrevia esotéricas crónicas sobre couves, nabos e demais tesouros do mundo das hortaliças, pelo Público sabia ali andar em transumância.

Colares conservava o ar burguês e português suave dos anos cinquenta, com os seus chalés de onde se via que o dinheiro fugira já, pérgulas a carecer de pintura, aloés e sardinheiras crescendo desordenados nas quintas. Apesar dos anos, pouco mudara, antes assim. A praia tinha um ar mais decadente, num amontoado branco de casas desordenadas, de várias épocas e gostos dissonantes, o pátio do Búzio deprimia pelo quintal sem jeito, que saudades lhe vieram do velho barracão do cinema. E do Quivuvi, do Casino, e da Concha, do Bibió decorado de bandejas , e do Xiripiti junto ao Neptuno. Gilberto sentiu nostalgia desses tempos, por os saber desaparecidos, há muito veraneava noutras bandas, menos epidérmicas e com menos passado a sépia, aos filhos chamou a atenção as pizzas e o Maçãs, onde com os novos amigos do Banzão poderiam curtir sábados à noite.

Passados os cinquenta  já, com uns calções verdes e panamá enterrado na cabeça, diária e religiosamente  se entreteve numa ritual volta pela praia, depois de abastecer de notícias no quiosque. Familiar, o Alberto do Búzio, com décadas de praia, lá estava, junto às sapateiras e robalos, bem perto, o eléctrico partia e chegava rangendo, como nos velhos tempos. Nunca mais nele andara, perdera a piada, já não podia ir no estribo a roubar fruta.

A praia perdera carisma, plantada de prédios a lembrar Quarteira, até chineses havia agora. O vento, esse, continuava o mesmo. Em tempos jogara à bola no clube da praia, alguns velhos amigos ainda por lá paravam, com barrigas de cerveja e carecas recentes, sempre jovens aos olhos dos amigos, celebrando o passado com uma fresquinha a cada encontro: o Tavares vivia em Inglaterra, tinha dois putos já casados, o Adriano em Janas, era bate-chapas, ele sumira uns bons anos, gestor numa empresa informática, nos anos das vacas gordas parando mais por Ibiza ou no Algarve.

A velha casa de Colares levara obras, janelas, uma churrasqueira nova, pouco restava do alçado à Raul Lino construído pelo pai nos anos cinquenta, memórias, sim, muitas, o mundo era outro, porém, os filhos quase adultos, os pêssegos e as pêras de vez sumidos, até o pão quente de Nafarros, após míticas noites de copos acabara. Como era uma aventura nesses tempos deixar Lisboa para dois meses em Colares, qual viagem ao interior profundo, levando cobertores, fogão, as compras na feira de S. Pedro e o pão de Mafra a estalar. Era diferente agora, com romarias para o shopping, e a ditadura do tabletTias renitentes haviam inventado o mercadinho de Almoçageme, aí, de novo seriam as “madames”, veneradas, nada a ver com a socialista caixa do suermercado. Como eram engraçadas, com as unhas pintadas simulando saber ao escolher os rabanetes e melões, que os velhos saloios, agora produtores biológicos, vendiam à beira da estrada.

Fora por quinze dias, mas o tempo, avaro em sol, mal o tirara de casa, lendo e tratando da relva. Até o calor a crise levara, canibalizando o sol. Sinal dos tempos, trocara o lavagante pelos percebes, o James Marten’s pela cervejinha, de quando em vez, uma salada de polvo ou de ovas acompanhavam a fresquinha da tarde, os dias iriam correndo entre a leitura e os passeios no calçadão da Praia Grande. No fundo, vivia tranquilo. Cortara Cancún, o golfe e o resort, os anos despreocupados iam distantes, mas estava em casa, navegando seguro num passado que nenhum spread apagaria. Atrás do cinzento, uma réstia de azul, afinal...

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