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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A classificação do edifício dos Paços do Concelho de Sintra


Incompreensivelmente, o IGESPAR decidiu recentemente arquivar o processo de classificação do edifício dos Paços do Concelho de Sintra como imóvel de interesse nacional, alegando não ter dignidade histórica ou artística suficiente. A Câmara de Sintra, e bem, decidiu recentemente promover a classificação enquanto imóvel de interesse municipal, quando passaram já 102 anos sobre a sua inauguração.
Até 1909 funcionou a Casa da Câmara de Sintra no edifício onde hoje se localiza o Museu do Brinquedo, na Vila. Foi em 25 de Novembro de 1903 que o então presidente, Dr. Virgílio Horta propôs, e a câmara aprovou, a construção de um novo edifício, bem como da cadeia comarcã e matadouro, nos terrenos anexos à capela da Quinta de S. Sebastião, propriedade municipal, tendo para tanto sido contraído um empréstimo de 34 contos junto do então Crédito Predial Português. Como sempre, em todos os tempos, muitos a tal localização se opuseram. Contudo a obra avançou, tendo o projecto sido entregue ao arquitecto Adães Bermudes, que elaborou um projecto romântico de gosto neo-manuelino, com uma torre de remates piramidais, corpo principal com "loggia" e claustrim neo-romântico no pátio central. O projecto ficou em 16 contos, e a obra, entregue a Tolentino da Costa, construtor de Lisboa, outros 16.
Ali se instalariam por muitos anos a Câmara, Conservatória e Tribunal, tendo a solene inauguração ocorrido a 21 de Junho de 1909.Para muitos, um edifício tardio, para outros bebendo nas fontes do Palácio da Vila, aí contínua ainda hoje, sendo quase sempre a primeira fotografia que os turistas tiram à chegada a Sintra.

O arquitecto Adães Bermudes, seu autor, (foto abaixo)foi um arquitecto de vulto na primeira metade do século XX.

Nasceu no Porto, em 1848,e aí se formou em Belas Artes, tendo estagiado em Paris com Paul Blondel. A sua obra é muito marcada pelo revivalismo, tendo no inicio do século ficado famoso pelas escolas primárias em estilo dito "português" que concebeu.Foi autor de vários edifícios regionais do Banco de Portugal (Bragança, Coimbra ,Évora e Faro)da C.M. Sintra, participou nos estudos para o Monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa, etc. Mas a sua obra mais consagrada foi a dum edifício Arte Nova na Almirante Reis, em Lisboa, com o qual ganhou o Prémio Valmor de 1908.Projectou igualmente o Hotel Astória, na baixa de Coimbra, bem como o edifício do Ministério da Agricultura na Tapada da Ajuda.
Em Sintra, para alem dos Paços do Concelho, projectou a Cadeia Comarcã, igualmente em estilo dito neo-manuelino, terminada em 1909,que era à época composta de 10 celas individuais, com sanita e chuveiro, sendo o r/c para os homens e o 1º andar para as mulheres.Morreu em Sintra em 19 de Fevereiro de 1948.
A classificação do dito edifício (que chegou a prever uma segunda torre, não executada) é um dever municipal que só peca por tardio.

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