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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Obrigado, mas não, obrigado


Passa a 11 de janeiro mais um aniversário do famigerado ultimato inglês de 1890, quando o primeiro-ministro Lord Salisbury enviou a Portugal um memorando exigindo a retirada das forças militares portuguesas chefiadas pelo major Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola (atuais Zimbabwe e Zâmbia), a pretexto de um incidente entre portugueses e macololos. A zona era reclamada por Portugal, que a havia incluído no famoso Mapa Cor-de-Rosa, reclamando a partir da Conferência de Berlim uma faixa de território que ia de Angola à contracosta, ou seja, a Moçambique. A concessão de Portugal às exigências britânicas foi vista como uma humilhação nacional pelos republicanos portugueses, que acusaram o governo e o rei D. Carlos de serem os seus responsáveis. O governo caiu, e António de Serpa Pimentel foi nomeado primeiro-ministro. O Ultimato britânico inspirou a letra do hino nacional e prenunciou o princípio do fim da monarquia dos Braganças.
Depois da retirada da família real para o Brasil, em 1807, nunca mais Portugal voltou a ser uma potência relevante no concerto das nações, fosse pelos anos em que estivemos sobre proteção britânica, fosse pela subsistência de um Império apenas formal, e a irrelevância de Portugal foi notória daí em diante, fosse com a questão do ultimato inglês, a participação na I Guerra Mundial ou o isolamento internacional durante as guerras coloniais de 1961-1974. Vem isto a propósito da posição portuguesa face aos recentes acontecimentos no Médio Oriente. Por um lado, nada condenando quando a administração Trump ordenou o assassínio dum general dum estado estrangeiro com quem, pelo menos formalmente, não está em guerra. Mas por outro, condenando de forma clara,  segurando as calças do Tio Sam, a esperada retaliação do país agredido, numa medrosa tomada de posição, supostamente de solidariedade com os nossos “aliados”.
Desde o século XIX que Portugal vive do fantasma dos ultimatos, ingleses, americanos ou chineses (veja-se como fomos desconsiderados por Angola no caso de Manuel Vicente, ou nem sequer fomos convidados para os 20 anos da devolução de Macau). A realpolitik é a dos fortes, aos fracos cabe segui-los, de forma salivar.
Hoje é também o Dia Internacional do Obrigado, hábito criado recentemente nas redes sociais. Ultimatos? Não, obrigado. A não ser que sejamos obrigados… Obrigado pela atenção!



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