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domingo, 12 de janeiro de 2020

As lágrimas não têm raça

Um estudante de Cabo Verde foi morto numa rixa em Bragança. Não se sabe se houve motivação racista, ou se foi um mero crime, onde infelizmente uma vida foi ceifada,e ontem em vários locais pelo país,e não só, centenas de pessoas reuniram-se para repudiar sobretudo a violência.
Portugueses e caboverdianos são povos irmãos, facto que na Alagamares, por exemplo, já sublinhámos por diversas vezes, visitando em tempos o Moinho da Juventude, na Cova da Moura, e o seu extraordinário trabalho cultural e social, e promovendo debates sobre a integração e o respeito pelo multiculturalismo que nos define desde o período dos Descobrimentos, quando apesar do esclavagismo decorrente do pensamento da época, muitos portugueses se uniram em casamento ou mesmo em rebelião contra o poder imperial nesses lugares de "desvairadas gentes", como lhes chamou o poeta.
Ficámos contentes, como se fosse nossa, com a classificação da morna como Património Imaterial da Humanidade, e registamos, com alegria, que nos concertos de Madonna, que hoje começam em Lisboa as batucadeiras e os sons de Cabo Verde inspiraram a cantora na sua fase "portuguesa", acolhendo os sons duma Lisboa do fado, mas também da morna e da coladeira.
A igualdade e a dignidade não têm cor de sangue, género ou religião, nem o têm as lágrimas, como sabiamente escreveu um dia António Gedeão. Não há raças superiores, só há racistas inferiores.


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.




~
As batucadeiras durante a visita da Alagamares



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