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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Welcome to India!



Nos setenta anos da independência da Índia, e em dia feriado, ocasião para relembrar o meu primeiro contacto com esse vasto país há cerca de dezoito anos. 
Depois de um voo de quatro horas desde Hong Kong, o periclitante avião da Air India aterrou no Indira Gandhi International Airport. Após a experiência do Aeroporto de Hong Kong, o moderno Kai Tak, numa ilha artificial construída perto de Chek Lap Kok, a aventura de pouco mais de quatro horas até Nova Deli mostrou-se decepcionante: passageiros tirando os sapatos e dobrando as pernas sobre os assentos, um entediante filme de Bollywood com enredo e cantores pimba, caril de frango logo pelas seis da manhã, para cúmulo, a casa de banho de bordo avariara e estava atolada em trampa nem meia hora depois que o avião descolara.
Depois das verdes selvas do Camboja e Vietname, a aridez castanha do Rajasthan foi-se desenhando lá em baixo, os casebres periclitantes e a ausência de estradas ou algo que se parecesse antevia uma realidade bem diversa da pujante China onde estivera três semanas, em progresso e modernizada. Tocado o solo, logo um bando de velhas com saris azuis e rosa se precipitou para a porta. Deixei-me estar, não tinha pressa, um guia da agência deveria esperar-me com um carro para me acompanhar nos dias que iria estar em Nova Deli.
Olhando pela janela, o cenário era pior do que o esperado: o aeroporto da capital da Índia era um barracão de madeira a lembrar a Rodoviária Nacional em Castro Verde, nos anos setenta. Nada de “mangas”, pista esburacada, os passageiros tinham de ir pelo seu pé para a zona da alfândega, sob um calor forte e seco. Dentro do barraco a que chamavam aeroporto, impotentes ventoinhas de plástico faziam  por atenuar o calor abrasador, o ar condicionado ainda não chegara àquelas bandas. Dezenas de indianos de bigode e cabelo escuro oleoso deambulavam carregados de embrulhos enrolados em cordas, muitos com barrigas proeminentes, exterior sinal do excesso de tandoori. Comecei  a ficar com náuseas e só esperava que o hotel de cinco estrelas que escolhera fossem cinco estrelas mesmo, e não cinco estrelas da Índia. Aquela viagem fora um fetiche romântico e exótico de entusiasta pela História, só para as vacinas passara duas horas no Egas Moniz semanas antes, pelo que a expectativa era grande.
Entre setas que tanto mandavam virar à esquerda como à direita, lá cheguei à zona de recolha de bagagem, um indiano desdentado e sorridente descarregava malas de mais de vinte pessoas, quase todas trouxas de roupa e material informático adquirido em Hong Kong, pelo aspecto encomenda de alguém, pois o indiano que o recolhia não parecia distinguir um computador dum micro ondas. As minhas  malas, duas, levaram vinte minutos a aparecer, uma cinzenta grande, com a roupa, e outra azul onde levava os souvenirs adquiridos na China: um conjunto de guerreiros terracota adquiridos em Xian, um dragão trabalhado em jade, miniaturas de pagodes e alguma roupa contrafeita adquirida em Xangai, boas imitações de uma mala Louis Vuitton e chás vários, para oferecer aos amigos. Ao passar na passadeira, a mala azul foi marcada com um giz branco por um polícia com odor a caril, que ia marcando aleatoriamente algumas malas, aí de cinco em cinco, para controlo na zona da alfândega. Peguei nelas e no passaporte e meti-me na fila, era o único português, e europeu, segundo me pareceu.
Chegada a vez, mostrei o passaporte, o visto estava em dia, para 6 meses. Já me preparava para seguir quando um polícia com bigode escuro e barba mal aparada mandou abrir a mala azul. Lá seguiam os guerreiros terracota e o dragão de jade, alguma roupa da manhã que não me apetecera arrumar na mala grande e o China Morning Herald. O polícia, com ar de Poirot asiático, pegou num dos guerreiros, mirou-o cirurgicamente, e sondou com ar sério, num inglês com sotaque arrastado:
-What’s this?- perguntou, com ar de quem detectara a jóia da coroa ou o ceptro do marajá de Jaipur. Descontraído mas saturado do calor e do cheiro a caril apressei-me a explicar, em inglês:
-Souvenirs. Venho da China, de férias, são coisas para os amigos, vou ficar uma semana. O trivial, sabe: Deli, Jaipur, Taj Mahal, o Triângulo Dourado….
O polícia colocou um ar grave e meneou a cabeça, estava só e o passageiro seguinte a mais de três metros:
-Hummm… não sei… não será roubado? É preciso licença para entrar com isto na Índia!- pareceu desencantar na altura. Nunca tal escutara, eram meras estatuetas das que se vendiam às centenas nas feiras  de Xian e Beijing.
-Pode crer, são souvenirs. Onde está escrito que é proibido?
O polícia chegou perto, e, baixando a voz, abordou com voz complacente:
-Bom… digo-lhe o que vou fazer. Você dá-me 50 dólares, e eu, para provar a  minha boa vontade para com sahib, deixo-o ir. Se não…
Pasmei, o polícia “fazia-se” a uma propina. Olhei em volta, nenhum europeu, estava entre a espada e a parede. Tentei refilar, mas, acabado de chegar e sem conhecer as praxes locais, saquei de 50 dólares, enfiei-os no passaporte e entreguei ao polícia, que, sorrindo, discretamente surripiou a nota, meteu-a no bolso e carimbou o passaporte, não sem desejar um sonoro “welcome to India!” que danado já mal ouvi.
Era demais! Bem me haviam avisado, países do terceiro mundo, mas logo a polícia, e ainda no aeroporto! Lá fora deveria estar um guia com um Tata para me levar ao Taj Palace, acelerei o passo suando de raiva a caminho da saída. Poucos passos faltavam para transpor a porta, suja de milhares de dedadas e rangendo por falta de óleo, outro polícia, quase sósia do primeiro, chamou-me, pedindo os papéis e que abrisse a mala azul, a marca do giz ainda recente alertara para a mala, era supostamente suspeita, fosse lá porque razão fosse. Ruborescido, abri e lá repeti que não, não ia fazer negócio com as peças e que os malditos guerreiros eram para oferecer aos amigos, “souvenirs, bloody souvenirs, only, understand?”.
Com uma calma de jumento e enrolando o bigode, o polícia colocou um ar clemente e lá repetiu o “formulário” de boas vindas à Índia:

-Bom, digo-lhe o que vou fazer….- espumando, lá saquei de mais 50 dólares, logo correndo para a porta antes que o dinheiro acabasse e outro zeloso funcionário me quisesse aliviar a carteira com mais um fraterno welcome. Não há como o turismo para aprofundar a relação entre os povos… Depois, o fascínio com os contrastes da extrema pobreza com ratazanas veneradas como deusas, os esgotos a céu aberto e a espectacularidade do Taj Mahal, o profundo Rajasthan e a parafernália de Mumbai, tudo terminando no longo palmeiral a sul de Kerala onde Vasco da Gama, sem malas nem souvenirs chegara hà mais de quinhentos anos. E pronto, é feriado, e vou ouvir um pouco de Ravi Shankar a recordar o pôr do sol de Goa, os búfalos de Agra e os chás de Udaipur.

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