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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Socialismos e Gavetas



Em 2017 passam 100 anos sobre a Revolução Russa. A paixão e multidões que tal fenómeno arrastou, com os descamisados de Outubro marchando ao som da Internacional até à vitória final é visualmente cénico e catalisador de emoções, gera a catarse de frustrações e alimenta a fé em algo que não se sabe se virá um dia.
Uma das características do ser humano é a sensação de insegurança e a necessidade de protecção e de amparo, e o Partido condutor e o seu líder vanguardista foram durante muitos anos o protector sem dúvidas existenciais a caminho da sociedade de iguais, essa terra do leite e do mel socialista.
A constante necessidade de ter um pai ou uma mãe nasce dos desejos mais intensos do ser humano, e das suas fragilidades. Aflitos de todo o mundo, uni-vos pois, para celebrar as certezas que a outros tantas dúvidas suscitam. E cantem-se hinos revolucionários de punho cerrado. Não resolve nada mas, tal como a aspirina, atenua a dor de cabeça sem curar a doença. 
O debate que a Alagamares promoveu ontem no News Museum, em Sintra, dedicado aos 100 anos da revolução russa demonstrou que o tema da revolução de Outubro  não sendo consensual, a ninguém deixa indiferente, sendo o maior pomo da discórdia o período em que José Estaline governou a URSS com mão de ferro. Há uma barreira intransponível, contudo, que nunca reconciliará revolucionários e reformistas, a das liberdades, ora prevalecendo a pessoa humana e o indivíduo, ora o sacrifício à vontade do colectivo na senda dum destino comum. Há vários socialismos, não sei se todos socialistas, divididos pela ideia de estado, de propriedade e de liberdade, áreas onde a ruptura epistemológica a todos afasta. Uns, sonhando os amanhãs que cantam, outros rendidos a um modo de vida hedonista e dito burguês,s proporcionado pelo Welfare State. Quem não é revolucionário aos vinte, não tem coração, quem o é aos quarenta, não tem cabeça, disse um dia Clemenceau, o velho político francês. Será? Talvez não. Mas isso sou eu, ex-revolucionário que também por lá andou nos idos de Abril.
Ninguém é perfeito, e, qual céptico relativista, apenas me interessam os feitos humanos não para ataca-los ou defendê-los, mas tão só para compreendê-los, como sabiamente escreveu Spinoza. Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá nada bem. Estará o socialismo de vez na gaveta, ou voltará a abrir-se a caixa de Pandora? A História o dirá.


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