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sábado, 22 de abril de 2017

A espuma e as ondas


Todos os dias são efémeros, mas hoje estamos apostados em perpetuar a efemeridade, galgando pelos acontecimentos com uma avidez consumista que os torna requentados poucas horas depois. As televisões carentes de novidade e de audiências alimentam este animus frenético, condimentado de alertas e últimas horas que, pouco tempo passado, já ninguém recorda. Esta semana foi o sarampo, o atentado de Paris, o Sporting-Benfica, mas alguém se lembra já do atentado de Estocolmo, do acidente de Lamego ou dos irmãos iraquianos em Ponte de Sor?  É a espuma dos dias, na feliz expressão de Boris Vian, com o mundo reduzido a um tablet ou uma rede social onde qual orgasmo se sublimam frustrações e silêncios para depois tudo voltar à mesma, neste cosmos contraditório, de avanços da ciência mas retrocessos civilizacionais, onde se matam adeptos de futebol rivais e transeuntes inocentes, mas também se abatem suspeitos de terrorismo a sangue frio e promovem muros no pior exemplo dum mundo onde o homem é, sem sombra de dúvida, o lobo do outro homem, qual cão de Pavlov esperando o sinal para salivar ódio e libertar frustrações.
Triste mundo da pós verdade e dos factos alternativos onde se lançam adeptos de futebol do alto da bancada, se deseja a morte violenta a adversários feitos inimigos de sangue e se manda bombardear países no intervalo de bolos de chocolate e gaseiam crianças com armas químicas.

Um Pacto de Humanidade num mundo onde se atente às ondas e não à espuma é preciso.

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