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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Zeca:Quando a revolução era em vinil





 

Zeca, trinta anos. Tão distante e tão perto. A voz dum povo revolto e revoltado, num tempo em que as utopias eram reais. Várias vezes te vi, sempre com aquele ar de quem estava em casa a cantar para amigos, e todo um povo plasmado em letras amalgamadas atrás da mordaça que alguns quiseram impor e outros não deixaram calar.

Recordo o Zeca do Orfeão Académico e da Tuna, com Adriano, António Portugal, Manuel Alegre, José Niza ou Rui Pato. Mas revejo com emoção sobretudo os gritos serenos que a sua musica sempre provocou, dos Vampiros às Cantigas do Maio, do Venham mais Cinco ou dos Filhos da Madrugada a Trás Outro Amigo Também.

Se a resistência à ditadura teve ícones na música, Zeca foi o maior deles, dum naipe onde se destacaram Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília ou Francisco Fanhais.

De certo modo, nós que fomos filhos da madrugada respondemos à chamada, de sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo nos poderíamos salvar. Salva-se hoje a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Apesar de tudo, a democracia, o menos mau dos regimes aí está, e a Liberdade, esse bem sagrado, também, imperfeitas, mas desafiadoras por isso mesmo.

Atrás de tempo, tempo vem, muitos anos passaram, valeu a pena. O som dos Vampiros, metálico e dolente, soa agora como música de fundo deste texto. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança, e é lutando pela mudança, pelo dialético desassossego das mentes e por um mundo onde se acrescente e construa que melhor celebraremos Zeca Afonso, a voz gutural desse Portugal cinzento, em uivo magistral num apelo a quebrar grilhões.

Na Alagamares por algumas vezes o homenageámos, com destaque para o espectáculo e exposição que promovemos na Sociedade União Sintrense em 2007, por ocasião dos 20 anos da sua morte, e no Sport União Sintrense, por ocasião dos 25. Mas a maior homenagem é ouvi-lo, sempre, e em particular nos momentos de desânimo, pois quando falece a vontade e a angústia sobrevem, lá está o Zeca, com o seu ar de quem pede desculpa por nos entrar na sala e a dizer: Trás outro amigo também!.





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