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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Lembrar o 25 de Novembro



Há 41 anos Portugal era um caso perdido para Kissinger e os americanos, que consideravam Mário Soares o Kerensky português. Lembro bem esse Verão Quente de 1975 onde a esquizofrenia duma democracia à deriva pautava a nossa vida diária, entre a utopia dos amanhãs que cantam e os interesses das potências numa fase ainda de dolorosa experiência com a descolonização.
Andei por Lisboa a romper o estado de sítio e o recolher obrigatório decretado por Costa Gomes, participei activamente na vida estudantil desse período, de saneamentos, passagens administrativas, serviços cívicos e dias de trabalho para a Nação, de juramentos de bandeira guevaristas e de balcanização de Portugal no jogo das potências da Guerra Fria. Os cravos murcharam, a normalidade instalou-se e, bem ou mal, lá encetámos o único caminho que hoje me parece ter sido o mais razoável, embora já não voem gaivotas nem nos juntemos em cantos livres. Disse Jorge de Sena, um pouco cinicamente, "Quem não é revolucionário aos 20, é porque não tem coração. Quem é revolucionário aos 40 é porque não tem cabeça".No entanto, a revolução que se tem de continuar a fazer é sobretudo a da cabeça, a das mentalidades, limpando fantasmas e varrendo fados sebastianistas, descolonizando a memória sem medo do futuro, que, definitivamente, já não é como era.
A geração de hoje não guarda senão uma memória atónita do que se passou em 74-75, talvez porque também não saiba o que foi Portugal de 1926 a 74. Toda a acção tem uma reacção, é da História, e esta está ainda por fazer, a que farão os que despidos de emoção olharem para ela com um conjunto de fact checks ou assunção de não verdades, como está na moda dizer. Para mim, insatisfeito mas não desiludido, entendo que todos os dias se faz a revolução, na mudança de atitudes, no respeito pelo Outro e pelo diferente, na assunção de que o Nós não pode engolir o Eu e vice-versa, na resistência quotidiana a unanimismos e verdades feitas. No tempo das redes sociais, à revolução que fez Portugal renascer, embora com escolhos de percurso, definitivamente eu ponho um like. LOL.

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