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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A lenta viagem para Utopia



Utopia foi um termo inventado por Thomas Morus e título da sua principal obra, escrita por volta de 1516, passam agora quinhentos anos. Segundo a versão de alguns historiadores, Morus apaixonou-se pelas narrações do navegador português Rafael Hitlodeu que navegara com Américo Vespúcio e ficara no litoral da América, enquanto este regressava à Europa. Aí conheceu múltiplas regiões e visitou uma ilha cuja situação geográfica Rafael nunca mencionou. O encontro com Thomas Morus foi mediado por Pedro Gilles e deu-se em Antuérpia. O longo diálogo com Rafael, divide-se em duas partes: na primeira, Morus tece duras críticas à sociedade em que vive, aspirando por uma sociedade perfeita; a segunda parte consta da narração por Rafael da ilha idealizada, e que conhecera com todos os pormenores: a organização política, social, como se organizavam as famílias, a divisão do trabalho, as cidades, a alimentação, etc. Nessa ilha todos viviam felizes e cada um tinha o que necessitava. Tal ilha imaginária mostrava-nos uma sociedade constituída com base na razão humana e onde só com esta se podiam resolver as questões da justiça e do bem comum.
Passam agora 500 anos da edição de tal obra, e a busca dessa mirífica Utopia ainda nos assalta, relendo Morus, o arauto de futuros que hão-de vir, todos buscando a Luz resplandecente e redentora que nos devolva um mundo hoje capturado, onde em cavernas da alma somos espeleólogos de amarguras e arqueólogos da ansiedade.
A poção da impaciência fervilha no caldeirão, mas não é ainda a hora de beber e soltar a Palavra, disforme sombra ainda na escura pedra da Caverna-Mundo onde deambulamos. Pululam os ditadores da era do Twitter, demagogos vendendo holográficos futuros, as gárgulas dos Trumps, Farages, das Marines e dos Dutertes, e muitos outros títeres plantados nas  matas penumbrosas dessa Utopia onde tarda o amanhecer e se digladiam poderes erráticos, usurários do vil metal, senhores da guerra e torquemadas do Verbo.

Falta o Fogo. O Fogo da Caverna, quente e aconchegado, mas castigador e purificante, e nela somos ainda prisioneiros, como faunos na noite. Na escuridão que se abate, tarda a Claridade e faróis pirilampos  que nos guiem à  fogueira utópica, quando, com um cálice de cidra enfim saciaremos a sede de justiça e liberdade.

Rafael Hitlodeu erra ainda, na Caverna ainda fria e ululante,  exilado nessa Elba Lunar donde, quem sabe, sairá uma radiosa manhã para dias de Luz, desafiadores e labirínticos. Assim o esperamos, há quinhentos anos, e há muitos mais quinhentos.

Por essa Utopia já várias vezes morremos, e logo qual Fénix renascemos, libertos e libertadores, peregrinando como anacoretas aflitos em busca da luz vaginal. E apesar das contrariedades de dias de incerteza, haveremos um dia de escrever poemas cristalinos, e gritar perfurantes palavras  que gravaremos em pedra. Porque ainda não é a hora de Rafael, e também em Ítaca outra aflita Penélope faz e desfaz os seus novelos, aguardando pelo desejado regresso de Ulisses, e pela salvífica Hora, cujo sinal talvez chegue no bico de uma gaivota rasgando as costas da Finisterra.

É negra a espera pela Hora de Utopia. Mas, como escreveu Simone de Beauvoir, “em todas as lágrimas há uma esperança”.

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