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domingo, 10 de maio de 2015

Sintra e Ferreira de Castro




Falar de Ferreira de Castro é falar de Sintra, terra pela qual se apaixonou e onde passou largas temporadas, e onde para sempre repousa, depois de, por pressão de outro grande sintrense, José Alfredo Costa Azevedo, ter sido enterrado perto do Castelo dos Mouros, em 31 de maio de 1975, para a eternidade se ligando à sua terra de adopção.
Ligação que não passou só pela ligação física, ao manifestar a vontade de “ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros», mas também pela do seu espólio literário, a Sintra doado em 3 Abril de 1973, por influencia de Francisco Costa, destacado escritor sintrense, e então director da Biblioteca Municipal, e de Alexandre Cabral, que teve na Camiliana de Sintra um apreciável acervo bibliográfico e documental para o desenvolvimento da sua investigação. Sendo presidente da Câmara António José Pereira Forjaz, este, em carta de 10 de Abril de 1973, dirigida ao romancista, manifestou-lhe alvoroçadamente o seu júbilo pela doação, aceite pela Câmara a 18 de Abril seguinte, dum total de mais de vinte mil documentos, doravante acessíveis aos investigadores.
A Selva, o seu mais conhecido romance, foi publicada em todas as latitudes, havendo que juntar-se-lhe outras magníficas obras como Emigrantes, Eternidade, Terra Fria (Prémio Ricardo Malheiros), A Lã e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão ou O Instinto Supremo, entre outras, além da literatura de viagens, como A Volta ao Mundo, de 1939. Foi por duas vezes proposto para Prémio Nobel de Literatura, e em França, obteve, em 1970, o primeiro Prémio Águia de Oiro, do Festival Internacional do Livro de Nice, atribuído por um júri internacional presidido por Isaac Singer.
O conto na obra de Ferreira de Castro surge logo nos seus primeiros anos de emigrante no Brasil, em 1912, quando trabalhou como caixeiro na região amazónica, tendo já nos anos vinte publicado os volumes de contos A Casa dos Móveis Dourados e O Voo nas Trevas.
Andrée Crabbé Rocha, ilustre professora de Coimbra e que foi esposa de Miguel Torga, escreveu um dia que o “conto casa-se bem com o temperamento português, feito de pronta emoção e rápida catarse”. Em Ferreira de Castro, a simplicidade e naturalidade corrente da linguagem, com a força da expressão dos sentimentos do homem comum, a sensibilidade perante a dor, a esperança no resgate da miséria e opressão, fizeram dele um escritor aberto às multidões, captando simpatia e adesão, percursor entre os autores que viram na arte uma missão social. É com limpidez que nos fala do homem sofredor, manifesta o seu amor pelos humildes e a confiança no futuro, devendo ser lido pelas novas gerações e relido pelas mais antigas, exemplo acabado do português pelo mundo repartido.
Em Ferreira de Castro sobressaem as descrições de paisagens, coloridas e densas, sejam as fragas e serranias do Norte, seja a exuberância inebriante dos trópicos, ou as pequenas cidades e vilas ainda com rosto humano, ao mesmo tempo que se assume como cirurgião de dramas, denunciante da exploração do trabalho, narrador da árdua luta pela sobrevivência, num fresco humano que, dando um panorama caleidoscópico duma sociedade desigual, nunca deixou igualmente de aprofundar a psicologia dos seus personagens e o seu sofrimento abnegado, figurantes dum mundo limitado e muitas vezes sem esperança, acordando as as consciências para o espelho da Vida.
A passagem de Ferreira de Castro por Sintra está documentada desde a primeira metade da década de 1940. No Hotel Netto escreveu parte da sua obra, e em Sintra se encontrou e veraneou com escritores como Jaime Cortesão e Mário Dionísio, em Seteais conheceu Stefan Zweig, pela Volta do Duche deambulou, deixando memórias hoje a sépia recordadas.
Homem do Mundo, soube entender os pequenos mundos que vivenciou, sofrendo, vivendo a vida, e no silêncio gritante da sua máquina de escrever ou do papel libertador cantar as serras beirãs e o império da Casa Grande e da Sanzala que moldaram o pathos de ser português.
A melhor homenagem que lhe podemos fazer é lê-lo, reeditar as suas obras e penetrar nas suas narrativas impregnadas de Vida, e, se possível, à sombra duma árvore no Castelo dos Mouros, o melhor lugar para  se contemplar o Mundo.

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