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segunda-feira, 6 de maio de 2019

Um perturbante odor a petróleo


A situação confusa que se vive na Venezuela não deve ser vista a preto e branco, com bons dum lado e maus do outro, antes tem de contemplar uma realidade complexa, e agora refém dos jogos de sombras internacionais.

De forma audaz, mas se calhar precipitada e aventureira, Juan Guaidó proclamou-se presidente interino, logo apoiado por Trump e Bolsonaro. Não terão sido os aliados mais adequados, porém, permitiu que a maior parte dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, logo embarcassem num apoio excessivo- reconhecem-se Estados, não governos ou presidentes- com isso deixando desapoiada a comunidade luso descendente, por falta de interlocutores locais. Guaidó arrasta-se um pouco quixotescamente pelas ruas de Caracas prometendo uma mudança iminente, contudo, sem armas, e com Maduro seguro por chineses e russos, e a hierarquia militar, pouco ou nada pode. Mas questionemo-nos: chegados a este ponto, alguém acredita que ganhe um lado ou outro o fantasma da ingerência, fazendo da Venezuela um protetorado, não fragilizará qualquer novo poder que venha a suceder ao atual?
Maduro exorbitou, é certo, mas se a Venezuela passa calamitosas necessidades, não será também pelo boicote dos Estados Unidos que por um lado congelam as contas e o abastecimento ao país, e por outro se aprestam farisaicamente a apoiar com comboios humanitários aqueles a quem fecharam a torneira? E Guaidó, se chegar ao poder pela mão dos americanos, saudosos da velha doutrina Monroe, que sempre viu a América Latina como o quintal dos fundos, não ficará maculado e manietado para o futuro com uma tal marca de água?
Nada é linear, e não há bons e maus. O ideal seria o diálogo entre as partes, mediado pela ONU ou pela Santa Sé, que fixasse um calendário eleitoral e um governo de transição, podendo e devendo ir a votos todas as forças em presença, bolivarianos incluídos, podendo até, se o povo assim o entender, votar em Maduro, e este voltar legitimado. Só assim se dissiparão as dúvidas, e pacificará aquele país em sofrimento. Contudo, alguém tem de tomar a iniciativa, e não pode ficar no ar a ideia de uma vitória de Trump ou Putin. Tudo faz lembrar Tintin e as guerras do general Tapioca com o general Alcazar. Neste drama caribenho, tudo ficará mais claro quando se diluir um perturbador cheiro a petróleo.

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