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domingo, 14 de abril de 2019

Phubbing, ou o medo de existir

Estão a ver quando quatro ou cinco pessoas estão à mesa de um café e ninguém fala com ninguém com os olhos postos no telemóvel? Estamos perante uma nova doença da classe das esquizofrenias chamada phubbing, onde o que o que se passa para lá do retângulo mágico é a realidade e a realidade o seu avatar.
Vivemos tempos de mudança. Vidrados na Sarjeta Mágica que nos diz quão verdadeiras são as notícias falsas, cá vamos arregimentados pelo Big Brother que já não está watching you mas nos devorou, apoderou da alma, filtrou a realidade, tornou a democracia um depositório de likes ululantes e de forma desvairada odiando e amando tudo o que mexe várias vezes ao dia, seja o clube de futebol, a política ou o video amador do amigo, tudo entrecortado por muitas selfies, a comer uma lasanha, a ver o por do sol na praia, com o Toy ou o professor Marcelo, numa perturbadora necessidade de mostrar. 
E no meio de tudo, não desligar do eletrodoméstico mágico, não se vá perder um comentário, uma "boca" ou a salvação do mundo entre duas imperiais ou um zapping na televisão.
Ele é nas paragens de autocarro,  nos cafés, nos centros de saúde ou nos cabeleireiros, como sarna incurável umbilicalmente ligando-nos a tal mundo. Por lá passam os novos hedonismos, a vaidade pessoal, a solidão de muitos que nesse novo confessionário se refugiam ante os altares dos download. Morre alguém? O RIP na rede social chora o defunto, com smileys adequados e gifs à escolha. Há uma festa de anos? Cria-se um evento no Facebook. Quer-se dar para uma causa para estar na moda? Promove-se um crowdfunding que muitas vezes não passa do contributo virtual do promotor, mas nos deixa com o espírito filantrópico do Live Aid de centro comercial. É este o Admirável Mundo Novo, paradoxalmente dito de era da comunicação mas onde provavelmente se janta em família (quem ainda janta em família...) a olhar para o ecrã mágico e sem nada para dizer ou partilhar. 


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